Brasil Crise
Por que o Brasil não consegue resolver crise de violência? Quais são os desafios?
Em paralelo, os roubos de celular, apesar da queda, seguem em patamar alto – quase um milhão em 2024, segundo o Anuário do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.
22/07/2026 08h43 Atualizada há 2 horas atrás
Por: Karoliny Dias Fonte: Estadão
Foto: Wilson Dias

A violência é a principal preocupação dos brasileiros, à frente de temas como a corrupção, pobreza e desigualdade. O País registra melhora nos índices criminais, com destaque para a queda histórica de homicídios, o menor número desde 2012. Por outro lado, a percepção de insegurança só aumenta.

Isso ocorre diante do controle promovido pelas facções – como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) – em comunidades e municípios, com reflexos até mesmo fora dessas áreas. Muitas vezes o domínio territorial inibe confrontos, mas impõe uma rotina de medo para moradores, que têm de obedecer a regras e até mesmo são vítimas de extorsão pelo crime organizado.

Em paralelo, os roubos de celular, apesar da queda, seguem em patamar alto – quase um milhão em 2024, segundo o Anuário do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. E o prejuízo de ter o aparelho levado ficou maior diante da facilidade de transferências bancárias por aplicativos.

Como reduzir assassinatos e demais crimes violentos e atingir níveis de países desenvolvidos? Propostas para enfrentar esses desafios serão discutidas no terceiro encontro do Brasil Adiante, série de eventos promovida pelo Estadão nos meses que antecedem as eleições de outubro, para construir uma agenda integrada e executável de soluções para os primeiros 24 meses do próximo governo. 

Prevenir, investigar e punir

O Brasil teve queda de homicídios pelo quarto ano seguido em 2024, com 44,1 mil registros, conforme o Anuário. Há menos de uma década, esses números superavam a marca dos 60 mil, em meio à escalada de conflitos entre PCC e CV.

“Mas 40 mil ainda é um número absurdo. E pior: não traduz a realidade do quadro de degradação”, afirma o analista de segurança e defesa Alessandro Visacro.

Estudo Global Sobre Homicídios divulgado pelas Nações Unidas (ONU), referente a 2021, mostrou que o Brasil teve 10% dos assassinatos registrados no mundo naquele ano. Periferias e regiões metropolitanas das grandes cidades concentram a maior parte dessas perdas, mas há tendência de interiorização da violência. 

“Há áreas sem homicídio não porque o Estado impõe regramento, mas porque existe ali o regramento de um grupo armado criminal”, continua Visacro.

Pesquisas já mostraram que o sobe-desce de homicídios no Brasil nas últimas décadas esteve mais ligado às dinâmicas de conflito ou pacificação entre as facções do que aos efeitos de políticas públicas. A transição demográfica do Brasil, com a queda do número de jovens, também altera o cenário.

Um dos gargalos para frear a crise de violência é o baixo índice de resolução de assassinatos, o que impede a prevenção de novos delitos. Levantamento do Instituto Sou da Paz aponta que seis a cada dez homicídios ficam sem esclarecimento no País, com grandes discrepâncias entre os Estados.

Enquanto foram apresentadas denúncias para mais de 80% dos assassinatos em Goiás e no Distrito Federal de 2020 a 2023, esse número não superou a marca dos 15% na Bahia e no Rio Grande do Norte. Estados com guerras de facções apresentam índices mais baixos de soluções de crimes. 

“Só é possível desenhar políticas de prevenção que efetivamente funcionem quando se entende a dinâmica e a motivação dos homicídios”, afirma Rafael Rocha, coordenador de projetos do Sou da Paz.

entrada de armas de uso militar e munição pelas fronteiras, assim como a apreensão desses equipamentos. “É esse tipo de arma que permite o domínio territorial, o confronto com agentes do Estado e ocorrências complexas, como a execução de autoridades”, apontou o Sou da Paz em artigo.

Nas favelas cariocas, por exemplo, fuzis, metralhadoras e drones-bombas desafiam a polícia mesmo em megaoperações, como visto na ofensiva contra o CV nos complexos do Alemão e da Penha em 2025.