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Paralisação da rede municipal marca protesto da APLB por valorização profissional e melhorias nas escolas de Feira de Santana
Sindicato afirma que categoria aguarda respostas do governo desde 2025 sobre plano de carreira, tabela salarial e condições de trabalho; professores denunciam falta de estrutura, de profissionais e desvalorização da educação municipal.
20/07/2026 11h32 Atualizada há 21 horas atrás
Por: Karoliny Dias Fonte: Boca de Forno News

Foto: Boca de Forno News 

A paralisação dos professores da rede municipal de Feira de Santana, realizada nesta segunda-feira (20), foi motivada por uma série de reivindicações que, segundo a APLB Sindicato, permanecem sem resposta por parte da Prefeitura desde o ano passado. Durante a mobilização, a presidente da entidade, Marlede Oliveira, afirmou que a categoria decidiu suspender as atividades após sucessivas tentativas de negociação sem avanços concretos.

Segundo Marlede, a paralisação foi aprovada em assembleia realizada na última quinta-feira (16), diante da ausência de respostas para uma pauta que deveria ter sido cumprida até novembro de 2025. “Nós paralisamos as atividades hoje porque a categoria quer resposta do governo sobre a nossa pauta. Era uma pauta para ser cumprida desde novembro do ano passado e nós já estamos em julho de 2026. Não é uma paralisação intempestiva. Nós estamos negociando há meses, mas não existe negociação quando não há resposta”, afirmou.

A dirigente sindical responsabilizou diretamente a gestão do prefeito José Ronaldo pela demora nas negociações e pela situação enfrentada pelos profissionais da educação. Ela destacou que um dos principais pontos é o não cumprimento da tabela salarial da categoria. Segundo Marlede, desde 2022 a Prefeitura deixou de aplicar corretamente a estrutura remuneratória prevista em lei, provocando um achatamento salarial.

“Hoje um professor com mestrado ou doutorado recebe praticamente o mesmo salário de um professor em início de carreira. Existe uma lei que estabelece diferenças salariais entre os níveis de formação, justamente para valorizar quem investe em qualificação. Isso não está sendo cumprido”, criticou.

Além da tabela salarial, a presidente da APLB afirmou que continuam sem solução questões como a mudança de referência funcional, a comissão responsável pelo Plano de Carreira e a valorização salarial dos profissionais.

Ela relembrou o histórico das negociações com a Secretaria Municipal de Educação. Segundo Marlede, uma audiência marcada para 13 de maio terminou sem qualquer proposta por parte da administração municipal. Posteriormente, uma nova reunião foi agendada para 10 de julho sob a justificativa de que seria necessário concluir estudos após o encerramento do semestre letivo. No entanto, o encontro acabou sendo remarcado para o dia 15 de julho, quando, de acordo com a sindicalista, novamente não houve respostas concretas.

“Diziam que fariam estudos e que apresentariam uma posição, mas chegamos lá e ninguém tinha resposta. O secretário chamou o sindicato, mas a audiência acabou sendo adiada novamente. Como já havia uma assembleia marcada para o dia 16, a categoria decidiu pela paralisação". 

Outro ponto enfatizado por Marlede foi a deficiência no quadro de servidores da rede municipal. Ela afirmou que diversas escolas enfrentam falta de professores, o que compromete o calendário escolar e faz com que algumas unidades tenham aulas apenas em determinados dias da semana. “Tem escola funcionando três dias, outras dois dias. Isso acontece porque faltam professores".

Marlede Oliveira - Foto: Boca de Forno News

Segundo a dirigente, a carência também atinge os cuidadores responsáveis pelo acompanhamento de estudantes neurodivergentes. “Crianças autistas estão fora da escola porque não há cuidadores suficientes. Essa responsabilidade não é da APLB. A responsabilidade é de quem governa". 

Marlede também chamou atenção para a situação dos estagiários da educação, afirmando que eles recebem uma bolsa de apenas R$ 500 desde 2016, sem qualquer reajuste.

Comparação com municípios vizinhos

Durante a entrevista, a presidente da APLB afirmou que professores estão deixando Feira de Santana para trabalhar em cidades vizinhas devido à diferença salarial. Segundo ela, municípios menores, como Coração de Maria, Santo Estêvão e Santo Amaro, oferecem remunerações superiores à praticada na segunda maior cidade da Bahia. “Feira de Santana hoje paga um dos piores salários da região. Municípios menores, sem o potencial econômico de Feira, remuneram melhor seus professores". 

Estrutura das escolas e merenda escolar

Marlede também rebateu comparações entre as redes estadual e municipal de ensino. Segundo ela, enquanto a rede estadual consegue manter professores, alimentação de qualidade e funcionamento regular das unidades, a realidade da rede municipal é diferente.

Ela afirmou que a APLB atuou para impedir o fechamento de escolas estaduais, citando como exemplos as escolas Imaculada Conceição, no bairro Conceição; Georgina Soares, no Aviário; e Eduardo Fróes da Mota. “Nós lutamos para que essas escolas permanecessem abertas porque lugar de criança é na escola". 

A sindicalista também criticou a qualidade da merenda oferecida pelo município. “Hoje a alimentação servida em muitas escolas é um biscoito com um suco. Isso é uma vergonha". 

Denúncias de professor

Jackson Oliveira - Foto: Boca de Forno News

Durante a mobilização, o professor Jackson Oliveira também explicou os motivos que o levaram a aderir à paralisação. Segundo ele, a categoria enfrenta falta de diálogo e o descumprimento de um acordo judicial firmado no ano passado. “O motivo é a falta de respeito da Prefeitura, do secretário de Educação e do prefeito com os professores. Existe uma pauta que foi objeto de um acordo judicial e, sistematicamente, os nossos direitos continuam sendo negados". 

Jackson citou como exemplo o não cumprimento da tabela salarial e da mudança de referência para professores que possuem especialização, mestrado e doutorado. “O professor investe na própria formação justamente para melhorar sua prática pedagógica e também porque a legislação garante progressão na carreira. Isso não está acontecendo.”

Jackson também relatou problemas estruturais enfrentados diariamente pelos profissionais da rede municipal. Segundo ele, faltam materiais básicos para o desenvolvimento das aulas, prejudicando o planejamento pedagógico. “Às vezes falta piloto para escrever no quadro, falta material para desenvolver as atividades e isso compromete completamente o nosso trabalho". 

Ele afirmou ainda que professores convivem com ausência de itens básicos nas escolas. “Há escolas onde falta papel higiênico. Nós precisamos comprar nossa própria água e nosso próprio café. Inclusive, somos proibidos de merendar a alimentação servida aos alunos". 

Para ele, essas condições têm provocado adoecimento entre os profissionais. “Para conseguir o mínimo necessário, o professor precisa lutar o tempo inteiro. É paralisação, greve, paralisação novamente, e os problemas continuam". 

Apesar dos impactos da paralisação no calendário escolar, Jackson afirmou que a mobilização também busca garantir melhores condições para os próprios estudantes. Segundo ele, a maioria dos alunos da rede municipal pertence a famílias em situação de vulnerabilidade social. “Sabemos que quem mais sofre é o aluno, principalmente os estudantes negros e pobres da rede municipal. Mas estamos lutando justamente para que eles tenham uma educação melhor, com estrutura, materiais e professores valorizados". 

O professor ressaltou que um ambiente de trabalho adequado reflete diretamente na qualidade do ensino. “Professor valorizado e motivado consegue motivar seus alunos. Quando a educação é valorizada, quem ganha é toda a sociedade", finaliza.