Cultura Cultura
Santo Amaro inaugura busto de Besouro Mangangá e reforça legado de resistência do lendário mestre da capoeira
Cerimônia reuniu representantes da cultura, da Santa Casa, mestres de capoeira e educadores, que destacaram a importância histórica de Besouro Mangangá e defenderam a preservação de sua memória para as futuras gerações.
04/07/2026 12h11
Por: Karoliny Dias Fonte: Boca de Forno News

Foto: Boca de Forno News 

A memória de um dos maiores símbolos da capoeira brasileira ganhou um novo capítulo neste sábado (4), com a inauguração do busto de Besouro Mangangá, em Santo Amaro da Purificação. A homenagem foi realizada no Cemitério Campo da Caridade, administrado pela Santa Casa de Misericórdia, local onde o lendário capoeirista foi sepultado após sua morte.

Nascido Manoel Henrique Pereira, em 1895, no bairro do Urupi, Besouro Mangangá tornou-se uma figura lendária por enfrentar coronéis, policiais e injustiças praticadas contra trabalhadores, negros e pobres no início do século XX. Discípulo do africano Mestre Alípio, construiu uma trajetória marcada pela coragem, pela habilidade na capoeira e pela fama de possuir “corpo fechado”, transformando-se em um dos personagens mais conhecidos da cultura popular brasileira.

Foto: Boca de Forno News 

Durante a cerimônia, a professora Maria Monte destacou que a homenagem representa um reconhecimento histórico para Santo Amaro e para o Brasil. “É de suma importância para a cultura de Santo Amaro, para a cultura da Bahia e do Brasil. Você não vê falar em outro capoeirista que seja Besouro Mangangá. Ele é santamarense e batalhou muito para defender o pobre, o oprimido, o negro que sofria. Ele se envolvia expondo até a própria vida para defender quem estava sendo oprimido”, afirmou.

A educadora ressaltou que o nome de Besouro ultrapassou as fronteiras do país. “De Santo Amaro saiu essa grande lenda, essa grande figura que levou essa cultura para o Brasil e para o mundo inteiro. Quando se fala em capoeira, as pessoas lembram logo de Besouro”, disse.

Foto: Boca de Forno News 

Maria Monte também aproveitou o momento para chamar atenção para outro patrimônio vivo da cidade: Mestre Felipe Santiago. “Santo Amaro tem, em atividade, o mestre de capoeira mais velho do mundo inteiro. Além de tudo, é uma pessoa educadíssima, atenciosa, que ama a capoeira e ama o que fez pela vida toda”, declarou.

Ao lembrar sua trajetória como professora, Maria Monte revelou que enfrentou resistência por defender a cultura afro-brasileira nas escolas. “Desde a adolescência eu levava bronca da minha mãe porque saía para essas atividades. Voltava para casa de castigo, mas ia mesmo assim. Participei de tudo quanto foi atividade sociocultural, principalmente em relação ao negro”, recordou.

Ela contou que também sofreu pressão no ambiente escolar. “Eu era professora de Educação Artística. Então, falar da cultura negra, da cultura popular, era o que eu predominava. Era capoeira, maculelê, samba de roda. Sofria pressão por isso, mas nunca deixei de trabalhar essa cultura”, afirmou.

Foto: Boca de Forno News 

O provedor da Santa Casa de Misericórdia de Santo Amaro, Francisco Vasconcelos, conhecido como Francisquinho, explicou que a instituição não poderia ficar de fora da homenagem. “A Santa Casa, por ser uma instituição bicentenária, tem que estar sempre acompanhando os movimentos culturais da terra. Nós não poderíamos ficar ausentes”, declarou.

Ele lembrou que a relação da instituição com Besouro é histórica. “Besouro foi sepultado como indigente no Cemitério Campo da Caridade da Santa Casa e faleceu na Santa Casa de Misericórdia de Santo Amaro”, destacou.

Segundo Francisquinho, a ideia surgiu após um pedido do presidente do Instituto Besouro Mangangá. “Sidney me pediu essa ajuda e a Santa Casa sempre se faz presente nos eventos culturais de Santo Amaro. É importante difundir a história da cidade para os santo-amarenses, para os baianos, para os brasileiros e para o mundo inteiro, porque a capoeira hoje representa o mundo”, afirmou.

O provedor anunciou ainda que o espaço ficará aberto para visitação pública. “Ao colocar o busto de Besouro Mangangá, estamos abrindo esse espaço para visita pública. Os turistas brasileiros e internacionais poderão conhecer essa história e esse legado tão rico que Santo Amaro possui”, ressaltou.

Sidney de Jesus - Foto: Boca de Forno News 

Presidente do Instituto Besouro Mangangá, Sidney de Jesus classificou a inauguração como um ato de reparação histórica. “Nós ficanos muito contentes por estar tendo essa oportunidade de fazer justiça com relação ao mestre Besouro, que tanto foi marginalizado, colocado como baderneiro, como uma pessoa do mal”, afirmou.

Segundo ele, a intenção é apresentar uma nova visão sobre a trajetória do capoeirista. “Hoje estamos mostrando para a população que Besouro foi uma pessoa que lutou contra as injustiças, contra a continuidade da escravidão. É uma pessoa que merece todo o nosso respeito. Estamos tentando mudar essa imagem ruim que foi construída em torno dele”, declarou.

Ao comentar a fama de valentia dos santamarenses, Sidney reconheceu que muitos enfrentaram o sistema, mas considera Besouro um caso único. “Teve muita gente boa, muita gente que contrariou o sistema, mas Besouro tinha características diferentes. Ele lutou muito sozinho. Foi justamente por isso que acabou sendo emboscado. Não encontrou um grupo que pudesse apoiá-lo nessa luta contra o sistema que oprimia o povo negro e os mais humildes”, disse.

O presidente do Instituto também explicou por que decidiu dedicar tantos anos ao resgate da história de Besouro. “Eu também fui sindicalista. Muitas vezes me vi sozinho. Fiquei imaginando como era a situação de Besouro lá atrás. Eu também enfrentei pessoas que queriam explorar os trabalhadores, e isso me encorajou a homenagear alguém que teve uma vida, não igual à minha, mas um pouco próxima da minha realidade”, relatou.

Sidney destacou ainda que a família de Besouro continua presente em Santo Amaro. “Tem parte da família dele no Trapiche de Baixo e outra parte no Bonfim. As raízes de Besouro continuam vivas em Santo Amaro”, afirmou.

Mestre Felipe Santiago - Foto: Boca de Forno News 

Em um dos momentos mais emocionantes da solenidade, Mestre Felipe Santiago, aos 99 anos, falou sobre o significado da homenagem. “É um grande prazer participar desse trabalho em homenagem a Besouro. Ele foi uma das primeiras pessoas que ajudaram a colocar a capoeira para frente. Hoje ela é um esporte muito famoso”, disse.

O mestre afirmou que a capoeira continua sendo a razão de sua alegria. “É um esporte que alegra a gente, distrai a gente. Basta ouvir o toque de um berimbau que desperta tudo na pessoa”, comentou.

Mesmo sem participar mais das rodas, ele garantiu que permanece ligado à arte. “Não estou mais saindo para apresentar capoeira, não estou tocando mais berimbau por causa da idade, mas continuo cantando, recebo muitas visitas e isso não me deixa sair da capoeira”, afirmou.

Mestre Felipe Santiago - Foto: Boca de Forno News 

Ao explicar sua relação com a modalidade, resumiu em uma frase que emocionou os presentes. “A capoeira está enraizada no meu corpo e plantada no meu coração”, declarou.

A inauguração do busto representa mais um passo na valorização da memória de Besouro Mangangá, personagem cuja história mistura fatos e lendas, mas que permanece reconhecido como um símbolo da resistência negra, da luta contra as injustiças sociais e da identidade cultural de Santo Amaro. O monumento também passa a integrar o roteiro de visitação do Cemitério Campo da Caridade, preservando para as futuras gerações o legado daquele que se tornou um dos maiores nomes da capoeira brasileira.

Com informações do repórter Gilliard José