Na véspera das comemorações do 2 de Julho, data que marca a Independência da Bahia, o professor de História e Geografia formado pela Universidade Estadual de Feira de Santana (Uefs), Vicente Gualberto, concedeu entrevista na qual abordou a importância histórica da data, o protagonismo dos baianos no processo de independência do Brasil e a necessidade de preservar essa memória para as novas gerações.
O professor, também pós-graduado em Economia, afirmou que a história da Independência costuma ser apresentada de forma incompleta nos livros didáticos, deixando em segundo plano a participação decisiva da Bahia.
Segundo ele, embora o 2 de Julho de 1823 simbolize a expulsão definitiva das tropas portuguesas da Bahia, o início do movimento ocorreu um ano antes, em 25 de junho de 1822, na cidade de Cachoeira. “O pontapé inicial fomos nós, baianos, em Cachoeira. Quando um barco português atacou a cidade, Cachoeira reagiu. Foi a primeira vila do Brasil a proclamar a independência. Na realidade, nós somos os precursores".
O professor ressaltou que a Independência do Brasil não foi resultado de um único ato, como tradicionalmente é retratado em referência ao 7 de Setembro. “Da forma como é colocado nos livros, parece que Dom Pedro levantou a espada, gritou "Independência ou Morte" e o Brasil ficou independente. Não foi assim. A independência foi conquistada ao longo de mais de um ano de guerra, banhada pelo sangue de baianos".
Ele lembrou que os confrontos aconteceram em diversos pontos da Bahia, como Pirajá, Cabrito, Salvador, na Baía de Todos-os-Santos, no Recôncavo Baiano e em Itaparica. “Existe todo um conjunto de guerras que os livros infelizmente omitem", disse.
Durante a entrevista, Vicente Gualberto explicou que, desde gestões anteriores do Governo da Bahia, tornou-se tradição transferir simbolicamente a capital do Estado para Cachoeira no dia 25 de junho.
Segundo ele, o gesto representa um reconhecimento ao papel desempenhado pelos moradores de Cachoeira e da região de São Félix, que ainda não existia como município na época, na luta pela independência.
Para o historiador, porém, a própria nomenclatura utilizada atualmente ainda reduz o protagonismo baiano. “Hoje se fala em Independência do Brasil na Bahia. Na realidade, deveria ser chamada de Independência da Bahia e do Brasil".
2 de Julho e 7 de Setembro
Ao comparar as duas datas históricas, o professor afirmou que o 7 de Setembro representa apenas um marco dentro de um processo que só foi concluído efetivamente em julho do ano seguinte. “O 7 de Setembro é um marco, mas a guerra continuou na Bahia até o dia 2 de julho de 1823, quando conseguimos colocar definitivamente as tropas do general Madeira de Melo para fora de Salvador", afirma.
Ele acrescentou que, em Itaparica, a retirada dos portugueses só foi concluída uma semana depois.
Vicente Gualberto destacou que a Bahia ocupa papel central na formação do Brasil e lamentou que diversos acontecimentos históricos ocorridos no estado recebam pouca atenção. “O Brasil nasce na Bahia. Nós tivemos o movimento popular pela independência antes do 7 de Setembro, com a Conjuração Baiana".
Ele também citou outros episódios históricos marcantes. “Temos a única revolta do mundo em que os habitantes se revoltaram para não serem enterrados em cemitério. Tivemos também a única revolta do Ocidente realizada por muçulmanos, que foi a Revolta dos Malês. Nada disso aparece nos livros. É como se a Bahia fosse colocada à parte da história".
Os heróis da Independência
Questionado sobre os principais personagens da luta pela independência, o professor destacou nomes que considera fundamentais para compreender o processo histórico. Entre eles, citou Maria Quitéria, natural da então região pertencente a Cachoeira, que cortou os cabelos, adotou o sobrenome Medeiros e se alistou disfarçada de homem no chamado Batalhão dos Periquitos. Segundo Vicente Gualberto, ela foi a primeira mulher a integrar efetivamente o Exército.
Também foram lembrados Maria Felipa, responsável pela resistência em Itaparica; o general francês Pierre Labatut; João das Botas, mestre de saveiro que se tornou almirante; Joana Angélica, considerada um dos símbolos da resistência; além dos encourados de Pedrão e dos vaqueiros vindos do sertão.
O historiador enfatizou que pessoas de diferentes origens participaram da luta. “Índios, brancos e negros se uniram para libertar o Brasil de Portugal. Naquela época, negros e indígenas sequer tinham cidadania reconhecida. Mesmo assim, lutaram por uma pátria que ainda não era deles", salienta.
Patriotismo
Durante a entrevista, Vicente Gualberto fez uma reflexão sobre o conceito de patriotismo e afirmou que o amor ao país não pode ser resumido ao uso das cores da bandeira nacional.
Ele criticou aquilo que chamou de “patriotismo canhestro” e afirmou que muitos dos verdadeiros heróis brasileiros são pouco conhecidos. “O patriotismo foi apropriado por algumas pessoas como se fosse propriedade delas. Mas quem é patriota é Maria Quitéria, é Joana Angélica, são aqueles que deram a vida pelo país".
Segundo ele, atualmente figuras do esporte são muito mais conhecidas que personagens fundamentais da história brasileira. “Neymar é herói, Vini Júnior é herói, mas Maria Quitéria não. Em Feira de Santana, muitas pessoas conhecem apenas a Avenida Maria Quitéria e não sabem quem foi a mulher que dá nome à avenida", lamenta.
Preservar a memória
Ao comentar sobre a valorização do 2 de Julho, o professor reconheceu que, durante muitos anos, também desconheceu a importância da data.
Ele afirmou que Salvador vive o feriado de maneiras diferentes. Enquanto parte da população aproveita apenas o dia de descanso, outra acompanha o cortejo do Caboclo e da Cabocla, símbolos da Independência da Bahia.
“É muito bonito ver as casas do bairro do Carmo com as portas abertas e enfeitadas para a passagem do Caboclo e da Cabocla. Existe uma Salvador para quem o 2 de Julho é apenas um feriado e outra para quem a data tem um significado profundo".
Educação e exemplo
Para Vicente Gualberto, o principal desafio é transmitir essa memória às novas gerações. Ele afirmou que a história está preservada, mas falta divulgação e ensino. “O discurso convence, mas o exemplo arrasta", ressalta.
Segundo ele, o patriotismo é construído desde a infância. “O pai precisa levar o filho ao desfile de Sete de Setembro. Eu fui quando criança. Aprendi os hinos nacionais na escola, aprendi a desenhar a bandeira. Hoje isso praticamente não existe mais".
O professor lamentou que muitos estudantes sequer saibam o significado do 2 de Julho ou do 15 de Novembro. “A escola não ensina mais isso. Nós precisamos cultuar nossos valores como fazem outros países".
Ele também afirmou que a transferência simbólica da capital para Cachoeira representa um acerto do Governo da Bahia, mas considera que falta divulgação da iniciativa.
Ao encerrar a entrevista, Vicente Gualberto resumiu o legado deixado pela Independência da Bahia. Segundo ele, homens e mulheres pobres, negros, brancos e indígenas, em sua maioria analfabetos, foram movidos por um ideal comum de liberdade. “Eles tinham dentro de si um sonho de liberdade. Saíram do Recôncavo, da Zona da Mata, do sertão e do agreste para lutar por esse ideal.”
O professor lembrou que a bandeira da Bahia, nas cores vermelha, azul e branca, representa os ideais de liberdade, igualdade e fraternidade. Para ele, mais de dois séculos depois, o 2 de Julho continua deixando uma mensagem atual para a sociedade brasileira.
“O sonho é o brilho do sol dentro da gente. Aquelas pessoas tinham um sonho e lutaram, inclusive com o sacrifício da própria vida, para transformá-lo em realidade. O 2 de Julho nos deixa justamente essa mensagem de liberdade, igualdade e fraternidade", concluiu.