Há tempos não se via um escândalo com tantos e diversificados tentáculos como os desdobramentos do Banco Master. Para além dos bilhões em prejuízo para as vítimas do golpe e para o próprio sistema financeiro, o desenrolar das relações de Daniel Vorcaro e sua trupe evidenciam que o Estado brasileiro é inerte a uma questão que mobiliza o mundo: o lobby. Tráfico de influência pode até ser crime, mas sem a regulamentação da profissão de lobistas, ficamos à mercê de relações promíscuas entre representantes do setor público e do setor privado, que sequer conseguem enxergar problema nelas.
Vorcaro é a face pública do Banco Master. Mas, para além dele, temos figuras como o baiano Augusto Lima e toda sorte de relações construídas ao longo de anos, que sobrepõe o interesse público a interesses privados. A operação que teve como alvo o senador Jaques Wagner é apenas uma das muitas pontas desse emaranhado de proximidades entre uma elite econômica e todo e qualquer brasileiro que consegue ascender socialmente. O sindicalista Wagner frequenta espaços de poder que vão muito além do alcance de um ex-governador, ex-ministro e senador. E não há crime nisso. Ou problema. Todavia, o senador da Bahia e parte do entorno não vai conseguir identificar a problemática teia traçada a partir das conexões que nasceram em universos não meramente republicanos.
Os tentáculos do Master atingem outros vertentes do espectro político, que também precisam ser elucidados, nos mesmos moldes da nova fase da Operação Compliance Zero. Flávio Bolsonaro e seus pedidos de "apoio" para uma peça publicitária travestida de filme ainda não lidaram com uma batida da PF. O senador Ciro Nogueira, pai da emenda que beneficou Vorcaro e o banco dele, foi flagrado em Ibiza, curtindo a vida como se não pairasse uma dúvida sobre sua índole (caráter chega a ser uma expressão forte demais para ser usada). Isso sem contar o braço que beneficiou o União Brasil e seus membros, como Antônio Rueda e as benesses recebidas do banqueiro ou ACM Neto e uma consultoria milionária (que, em olhos semicerrados, sugerem que o ensinamento transmitido tenha sido uma atuação mais profissional do lobismo). Davi Alcolumbre, Cláudio Castro e tantos outros que aparecem imbricados com benefícios inapropriados para azeitar previdências de funcionários públicos no Master também podem ser listados nesse hall.
Existe ainda o braço do alcance de Vorcaro e cia no Judiciário. Achar que apenas ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) deveriam ser observados com mais cuidado é achar que os problemas desse poder se resumem à Suprema Corte. Não se chega aonde ele chegou só com anuência de grandes autoridades. A prática vem da base e é preciso ter um esforço da reforma do Estado brasileiro, que inclui uma revisão das relações entre o público e o privado e a prática instaurada do lobby - que sequer é regulamentado em território brasileiro.
O escândalo do Banco Master poderia ser uma virada de chave para o Brasil. Até aqui, ele vem caminhando para ser mais um episódio que, no futuro, passará por revisão histórica (e judicial), tal qual tantos outros momentos do nosso passado recente. As consequências da Lava Jato que o digam. Queria eu que "reflexos de Moro" fossem apenas espasmos dos membros de bebês pequenos...