Feira de Santana Índices
Economia forte, mas socialmente desigual reflete índice que coloca Feira de Santana entre cidades com pior qualidade de vida
Avaliação é do sociólogo Ricardo Aragão, que destaca como o município enfrenta dificuldades históricas na distribuição da renda. Feira aparece entre os 10 piores desempenhos do país no ranking nacional das grandes cidades, feito pelo Índice de Progresso Social (IPS).
30/05/2026 08h44
Por: Karoliny Dias Fonte: g1 Bahia
Feira de Santana está entre piores cidades em qualidade de vida no Brasil — Foto: TV Subaé

A posição de Feira de Santana, como um dos 10 municípios brasileiros com pior desempenho social, é reflexo de uma cidade que se sustenta com economia forte, porém socialmente desigual. A avaliação é do sociólogo Ricardo Aragão, que comentou os dados do Índice de Progresso Social (IPS) Brasil 2026 em entrevista ao site.

O levantamento que mede indicadores ligados à qualidade de vida foi divulgado na última semana e mostra Salvador como a quarta capital com pior condição. Na outra ponta, o município de Abaíra, conhecido como a "capital da cachaça", foi a cidade baiana melhor colocada no ranking.

Feira é um destaque negativo na categoria que reúne grandes municípios — com população entre 500 mil e 1 milhão de habitantes. A cidade recebeu nota 60,70 em uma escala que vai de 0 a 100, abaixo da média nacional, de 63,40 pontos.

Para Ricardo Aragão, esse cenário é um retrato da cidade cuja economia é robusta, impulsionada pelo comércio, logística, setor de serviços e industrialização ao mesmo tempo que enfrenta dificuldades históricas na distribuição dessa renda.

"Feira é um dos maiores entroncamentos logísticos do Nordeste, possui comércio intenso, setor de serviços robusto, universidades e forte circulação de capital", contextualiza o sociólogo antes de pontuar a distorção.

"O município possui bolsões de pobreza urbana e rural. Parte significativa da população não usufrui plenamente da riqueza produzida pela cidade".

Outro ponto apontado pelo sociólogo é a violência urbana. Entre os indicadores avaliados pelo levantamento, um dos piores desempenhos da cidade foi em "Segurança Pessoal", que considera fatores como homicídios, violência urbana e mortes no trânsito. Feira registrou apenas 16,70 pontos nesse componente, um dos menores índices do país.

De acordo com Aragão, o crescimento acelerado e desordenado da cidade, principalmente entre as décadas de 1970 e 1990, impulsionado pela localização estratégica às margens da BR-324 e pela expansão econômica do interior da Bahia, contribuiu para a expansão periférica e para problemas estruturais que permanecem até hoje.

"Isso provocou pressão sobre saneamento básico, mobilidade urbana precária, ocupações irregulares e dificuldades de planejamento urbano. Ou seja, a infraestrutura urbana não acompanhou o ritmo do crescimento populacional da cidade", explicou.

Feira de Santana aparece entre os municípios com pior desempenho social do Brasil no recorte das cidades com mais de 500 mil habitantes — Foto: Relatório IPS Brasil 2026

Já no eixo "Inclusão Social", o município teve 47,25 pontos. Em "Acesso à Educação Superior", o índice foi de 33,93 pontos.

Embora a cidade concentre importantes instituições de ensino superior, como a Universidade Estadual de Feira de Santana (Uefs), o sociólogo avalia que isso não se converte automaticamente em mobilidade social ampla.

Segundo Aragão, o modelo econômico da cidade ainda está concentrado no comércio e em serviços com baixa densidade tecnológica, o que resulta em empregos de menor remuneração e limita a distribuição de riqueza.

"Feira cresceu economicamente, mas de forma fragmentada socialmente. O índice chama atenção justamente para esse contraste entre a centralidade econômica da cidade e as dificuldades persistentes em transformar crescimento em qualidade de vida para a população", analisou o especialista.

Como o índice foi feito?

O índice é composto por 57 indicadores separados em três grupos principais. São eles:

- Necessidades Humanas Básicas: avalia se o brasileiro tem acesso à comida, saúde, moradia, segurança.

- Fundamentos do Bem-Estar: analisa acesso à educação fundamental, vida saudável, contato com a natureza.

- Oportunidades: analisa os dados a respeito de direitos individuais e acesso ao ensino superior.

Para calcular o IPS, que mede e classifica a qualidade de vida nos 5.570 municípios brasileiros, o levantamento cruzou esses indicadores. O estudo, que visa orientar políticas públicas e investimentos sociais, é produzido pelo Instituto IPS, Social Progress Imperative, Imazon, Amazônia 2030, Fundación Avina e Centro de Empreendedorismo da Amazônia.