A posição de Feira de Santana, como um dos 10 municípios brasileiros com pior desempenho social, é reflexo de uma cidade que se sustenta com economia forte, porém socialmente desigual. A avaliação é do sociólogo Ricardo Aragão, que comentou os dados do Índice de Progresso Social (IPS) Brasil 2026 em entrevista ao site.
O levantamento que mede indicadores ligados à qualidade de vida foi divulgado na última semana e mostra Salvador como a quarta capital com pior condição. Na outra ponta, o município de Abaíra, conhecido como a "capital da cachaça", foi a cidade baiana melhor colocada no ranking.
Feira é um destaque negativo na categoria que reúne grandes municípios — com população entre 500 mil e 1 milhão de habitantes. A cidade recebeu nota 60,70 em uma escala que vai de 0 a 100, abaixo da média nacional, de 63,40 pontos.
Para Ricardo Aragão, esse cenário é um retrato da cidade cuja economia é robusta, impulsionada pelo comércio, logística, setor de serviços e industrialização ao mesmo tempo que enfrenta dificuldades históricas na distribuição dessa renda.
"Feira é um dos maiores entroncamentos logísticos do Nordeste, possui comércio intenso, setor de serviços robusto, universidades e forte circulação de capital", contextualiza o sociólogo antes de pontuar a distorção.
"O município possui bolsões de pobreza urbana e rural. Parte significativa da população não usufrui plenamente da riqueza produzida pela cidade".
Outro ponto apontado pelo sociólogo é a violência urbana. Entre os indicadores avaliados pelo levantamento, um dos piores desempenhos da cidade foi em "Segurança Pessoal", que considera fatores como homicídios, violência urbana e mortes no trânsito. Feira registrou apenas 16,70 pontos nesse componente, um dos menores índices do país.
De acordo com Aragão, o crescimento acelerado e desordenado da cidade, principalmente entre as décadas de 1970 e 1990, impulsionado pela localização estratégica às margens da BR-324 e pela expansão econômica do interior da Bahia, contribuiu para a expansão periférica e para problemas estruturais que permanecem até hoje.
"Isso provocou pressão sobre saneamento básico, mobilidade urbana precária, ocupações irregulares e dificuldades de planejamento urbano. Ou seja, a infraestrutura urbana não acompanhou o ritmo do crescimento populacional da cidade", explicou.
Feira de Santana aparece entre os municípios com pior desempenho social do Brasil no recorte das cidades com mais de 500 mil habitantes — Foto: Relatório IPS Brasil 2026
Já no eixo "Inclusão Social", o município teve 47,25 pontos. Em "Acesso à Educação Superior", o índice foi de 33,93 pontos.
Embora a cidade concentre importantes instituições de ensino superior, como a Universidade Estadual de Feira de Santana (Uefs), o sociólogo avalia que isso não se converte automaticamente em mobilidade social ampla.
Segundo Aragão, o modelo econômico da cidade ainda está concentrado no comércio e em serviços com baixa densidade tecnológica, o que resulta em empregos de menor remuneração e limita a distribuição de riqueza.
"Feira cresceu economicamente, mas de forma fragmentada socialmente. O índice chama atenção justamente para esse contraste entre a centralidade econômica da cidade e as dificuldades persistentes em transformar crescimento em qualidade de vida para a população", analisou o especialista.
Como o índice foi feito?
O índice é composto por 57 indicadores separados em três grupos principais. São eles:
- Necessidades Humanas Básicas: avalia se o brasileiro tem acesso à comida, saúde, moradia, segurança.
- Fundamentos do Bem-Estar: analisa acesso à educação fundamental, vida saudável, contato com a natureza.
- Oportunidades: analisa os dados a respeito de direitos individuais e acesso ao ensino superior.
Para calcular o IPS, que mede e classifica a qualidade de vida nos 5.570 municípios brasileiros, o levantamento cruzou esses indicadores. O estudo, que visa orientar políticas públicas e investimentos sociais, é produzido pelo Instituto IPS, Social Progress Imperative, Imazon, Amazônia 2030, Fundación Avina e Centro de Empreendedorismo da Amazônia.