Por trás da imagem de “guru especialista em cura emocional” construída para mais de 430 mil seguidores nas redes sociais, o psicoterapeuta Jordan Campos é acusado pelo Ministério Público da Bahia (MP) de usar sessões terapêuticas, cursos e mentorias como instrumentos de manipulação emocional, assédio sexual e exploração psicológica de mulheres, muitas delas em situação de vulnerabilidade.
Alvo da “Operação Catarse”, realizada na última terça-feira (26), Jordan Campos é investigado pelos crimes de violação sexual mediante fraude, estelionato e assédio contra pacientes, alunas e funcionárias. O Jornal Metropole teve acesso a documentos do inquérito que descrevem um suposto padrão de atuação marcado por humilhações públicas, coerção psicológica, dependência emocional, relações sexuais em contextos de fragilidade psíquica, exposição de vulnerabilidades íntimas e até prescrições médicas irregulares.
Segundo o MP, o investigado utilizava a posição de autoridade terapêutica, o acesso a informações pessoais das vítimas e a própria notoriedade nas redes sociais para criar vínculos de dependência emocional. As investigações apontam que mulheres com histórico de depressão, ansiedade, baixa autoestima, transtornos psiquiátricos e traumas familiares eram gradualmente inseridas em uma dinâmica de controle psicológico dentro do grupo liderado pelo terapeuta.
Nas redes sociais, Jordan Campos se apresenta como escritor, palestrante internacional e especialista em comportamento humano, embora sem formação universitária na área. Os conteúdos publicados misturam espiritualidade, desenvolvimento pessoal, neurociência e promessas de transformação emocional. Uma dia após o portal Metro1 revelar o caso em primeira mão, Jordan Campos publicou uma nota em seu perfil no Instagram, na qual alega inocência.
Engrenagem da manipulação
Os documentos obtidos pela reportagem mostram que parte das vítimas conheceu Jordan inicialmente como terapeuta e, com o tempo, passou a integrar cursos, grupos de formação e até a trabalhar diretamente ao lado do investigado. Em um dos depoimentos, a primeira vítima a denunciá-lo, cujo nome será preservado, afirma que começou a trabalhar no Núcleo de Terapia Integrada Jordan Campos, em Salvador, e percebeu uma “grande rotatividade” de mulheres no ambiente. Muitas delas, segundo o relato, eram ex-pacientes ou ex-alunas do próprio investigado.
A mesma vítima afirmou ao Ministério Público que o investigado “dá cursos na área de psicoterapia, mas não é formado em psicologia”, o que foi confirmado pelo Jornal Metropole, e se apresentava como “mestrando e doutor honoris causa”. Os autos descrevem um ambiente de trabalho considerado “tóxico”, marcado por explosões verbais, humilhações públicas e intimidação psicológica. Segundo o depoimento, Jordan teria “mandado a equipe tomar no c*”, batido na mesa, chamado funcionárias de incompetentes e enviado mensagens fora do horário de trabalho.
Abusos em série
O processo também reúne relatos de sexualização do ambiente profissional. Uma das vítimas afirma que o investigado enviava “fotos íntimas” e “imagens sensuais” dele e da esposa em grupos de WhatsApp utilizados para comunicação de trabalho. As investigações apontam ainda para possíveis intervenções sem respaldo clínico e supostas prescrições médicas irregulares.
Segundo os documentos, o investigado teria prescrito medicamentos utilizando um receituário em nome de um médico, embora a vítima afirme nunca ter sido atendida pelo profissional. Em outro trecho, os autos mencionam indicação de ocitocina, tadalafila, florais e substâncias apresentadas como ferramentas de “alinhamento energético”.
Arquétipo da ‘figura messiânica’
Os documentos também descrevem relações sexuais ocorridas em contextos de dependência emocional. Uma das mulheres afirma que o investigado começou a apresentar “comportamentos sexuais inadequados” durante um evento chamado “Vivência Catarse”. Segundo o relato, Jordan fazia comentários de conotação sexual e posteriormente convidou a vítima para um flat, onde os dois tiveram relação sexual.
Ainda nos autos, há detalhes sobre o perfil das vítimas e os mecanismos de coerção supostamente utilizados pelo terapeuta. Uma das mulheres teria investido R$ 15 mil em cursos do grupo. Segundo o documento, ela teria sido submetida a “humilhação pública”, supostas técnicas de Programação Neurolinguística (PNL) para “fragilização psíquica” e relação sexual “sob estado de imobilidade tônica”, reação involuntária do corpo associada a situações extremas de medo ou trauma, em que a pessoa fica sem conseguir reagir
Outra vítima relatou que o ambiente incentivava uma espécie de adoração ao terapeuta como figura superior, além de competição entre integrantes e “ameaças de retaliação mágica e espiritual”. As consequências descritas pelas mulheres incluem crises severas de ansiedade, depressão profunda, síndrome do pânico, paranoia, candidíase recorrente, afastamento do trabalho, dependência de medicamentos controlados e múltiplas internações psiquiátricas.
Fechamento de empresa e bloqueio de bens
A investigação conduzida pelo Grupo de Atuação Especial de Combate às Organizações Criminosas (Gaeco) e pelo Núcleo de Enfrentamento às Violências de Gênero em Defesa dos Direitos das Mulheres (Nevid) do MP da Bahia cumpriu mandados de busca e apreensão na residência e no consultório do investigado, nos bairros da Pituba e Caminho das Árvores, em Salvador.
A pedido dos investigadores, a Justiça determinou o bloqueio de mais de R$ 960 mil em bens, a quebra dos sigilos informático e telemático e a suspensão imediata de consultas clínicas, mentorias, cursos, palestras e atividades de natureza psicoterapêutica ligadas ao investigado.
Até o momento, quatro vítimas foram formalmente identificadas, três relacionadas a crimes contra a dignidade sexual e uma ligada a crime patrimonial. Segundo os investigadores, todas relataram padrões semelhantes de atuação e disseram conhecer outras mulheres que ainda não procuraram as autoridades por medo, vergonha ou receio de exposição pública.
Guru investigado alega inocência
Jordan Campos se pronunciou nas redes sociais nesta quarta-feira (27), um dia após se tornar alvo da “Operação Catarse”, deflagrada pelo Ministério Público da Bahia. Em nota publicada nas redes sociais, ele negou as acusações de abuso, assédio e exploração psicológica feitas por pacientes e ex-alunas.
"Preciso iniciar dizendo com clareza que sou totalmente inocente das acusações que vêm sendo feitas. Nunca pratiquei assédio, abuso ou qualquer forma de exploração contra quem quer que seja. Na verdade, eu sempre lutei exatamente contra esse tipo de situação", diz o texto.
Jordan disse ainda que parte das denúncias já havia sido apresentada anos atrás e que, na época, houve uma investigação no Ministério Público do Trabalho arquivada por falta de provas.
O terapeuta também declarou que a atual investigação envolve uma disputa patrimonial ligada a relações contratuais e societárias já discutidas anteriormente na Justiça. Segundo ele, houve entendimento policial anterior pela ausência de elementos de estelionato.
Na publicação, Jordan afirmou que atua há mais de 20 anos na área de desenvolvimento humano e que construiu sua trajetória por meio de consultas, cursos, palestras e livros.
Jair Tércio e João de Deus
O cerco a Jordan Campos reacende discussões sobre líderes espirituais e terapeutas que transformam discursos de acolhimento e espiritualidade em estruturas de manipulação psicológica. Na Bahia, um dos episódios mais emblemáticos envolve o médium Jair Tércio, revelado pelo Grupo Metropole.
Ele é acusado por diversas mulheres de abuso psicológico, violência sexual e controle emocional dentro de grupos espiritualistas. Investigado por estupro de vulnerável, charlatanismo e lesão corporal por ofensa à saúde mental, Jair Tércio é considerado foragido da Justiça desde 2020.
O cenário também remete ao caso do médium João de Deus, condenado a mais de 370 anos de prisão após centenas de denúncias de mulheres que relataram abusos sexuais cometidos durante atendimentos espirituais em Abadiânia, Goiás. Durante anos, o líder religioso construiu uma imagem pública, recebendo celebridades, políticos e pacientes de diferentes países.