O Bembé do Mercado, considerado o maior candomblé de rua do mundo, segue mobilizando moradores, visitantes e comunidades de terreiro em Santo Amaro, no Recôncavo Baiano. Neste ano, a celebração acontece em meio a um momento delicado para a organização do evento: a ausência física do babalorixá Pai Pote, presidente da Associação Beneficente Bembé do Mercado, que enfrenta problemas de saúde.
Em entrevista à Rádio Santo Amaro FM e ao site Boca de Forno News, o babalorixá Genivaldo Caldas de Oliveira, vice-presidente da associação responsável pela realização do Bembé, falou sobre a emoção e os desafios de conduzir a festa sem a presença ativa de uma das maiores referências culturais e religiosas do Recôncavo.
Segundo Genivaldo, realizar o evento sem Pai Pote tem sido “muito difícil”, devido à importância histórica, cultural e espiritual do líder religioso para o Bembé e para Santo Amaro. “Estamos acostumados com a presença dele, com a alegria, o dinamismo. Mas ele mesmo nos lançou esse desafio. Disse que queria ver um Bembé lindo feito por nós. Tudo o que estamos realizando aqui foi orientado por ele”, afirmou.
O sacerdote destacou que toda a equipe organizadora vem trabalhando com dedicação e respeito às tradições ancestrais. Para ele, o Bembé ultrapassa os limites de Santo Amaro e representa a resistência e a sobrevivência das comunidades negras no Brasil. “O Bembé é uma grande potência nacional. Ele é importante para que a gente entenda a vivência e a resistência do povo negro do Recôncavo e do Brasil”, ressaltou.
A abertura da programação, realizada na última quarta-feira (13), chamou atenção pelo grande público presente logo no primeiro dia das celebrações. Tradicionalmente mais voltado às comunidades de terreiro, o início do evento reuniu moradores, turistas e visitantes de outros estados e até de outros países.
Entre as atrações culturais estiveram manifestações como Nego Fugido, capoeira, maculelê e apresentações da Filarmônica Filhos de Apolo, novidade incorporada à programação deste ano.
Genivaldo comemorou a forte participação popular e atribuiu o sucesso da abertura ao cuidado e ao zelo dedicados à realização do evento. “A comunidade compareceu em peso. Isso nos alegra e mostra que estamos cuidando do Bembé da maneira correta, com amor e respeito aos orixás e aos ancestrais”, disse.
Mesmo diante das obras de restauração do Mercado Municipal e da necessidade de reorganização do espaço, a celebração tem ocorrido de forma organizada, segundo os organizadores. O vice-presidente destacou o diálogo realizado com os barraqueiros e comerciantes do Largo do Mercado para garantir que ninguém fosse prejudicado. “No início houve preocupação, porque este é o espaço dos barraqueiros, da feira livre. Mas tudo foi tratado com muito cuidado. O prefeito conversou pessoalmente com os trabalhadores e conseguimos fazer uma realocação que ficou boa para todos”, explicou.
Durante a entrevista, Genivaldo também comentou sobre críticas políticas direcionadas à Prefeitura durante discursos realizados na abertura do evento. Ele ressaltou que o Bembé do Mercado possui uma organização própria, conduzida pela associação responsável pela celebração, e destacou o apoio dado pelo poder público municipal. “A Prefeitura sempre apoiou o Bembé do Mercado pela sua importância histórica e cultural. As divergências políticas existem, mas o bem maior aqui é o Bembé, a memória ancestral de João Obá e os 137 anos de resistência e afirmação do povo negro do Recôncavo”, afirmou.
Ao final, Genivaldo agradeceu as manifestações de carinho direcionadas a Pai Pote e reafirmou o compromisso da organização em manter viva a tradição do Bembé do Mercado, uma das mais importantes manifestações culturais e religiosas da Bahia. "Temos que celebrar esses 137 anos de luta, resistência e de afirmação do povo negro do Recôncavo", concluiu.