Brasil Vício em jogos
Piovani x Virginia: auditora do TCE relata exposição e luta após morte do irmão
Advogada que teve vídeo usado por Piovani para atacar Vírginia, falou com exclusividade site.
29/04/2026 07h37
Por: Karoliny Dias Fonte: A Tarde
Até este mês abril, 85 empresas operam 187 plataformas no país, segundo a SPA - Foto: Joédson Alves / Agência Brasil

A exposição repentina de sua imagem em meio a uma briga entre famosas acabou levando a advogada e auditora do Tribunal de Contas da Bahia (TCE - BA), Juliana Prates, a um debate nacional que ela já vinha tentando provocar há meses: os impactos das apostas online no Brasil.

O episódio, que envolveu a atriz Luana Piovani e a influenciadora Virginia Fonseca, na última segunda-feira, 27, ampliou o alcance de uma discussão que, segundo a advogada, já deveria ser tratada como questão de saúde pública.

Em entrevista exclusiva ao site, nesta terça-feira, 28, Juliana, que perdeu o irmão, Otacílio Prates, também advogado e auditor do TCE-BA, vítima de ludopatia - vício em jogos de azar -, afirma que nunca teve a intenção de transformar sua dor em polêmica.

Ainda assim, reconhece que a repercussão acabou dando visibilidade ao tema. “A ideia é a gente falar sobre diminuir, acabar com essa publicidade hoje, porque ela que acaba estimulando, segundo diversas pesquisas, uma grande quantidade de pessoas que vão para o vício, que normaliza uma atividade que não é normal”, esclarece ela.

A auditora defende ainda que o Brasil siga caminhos semelhantes aos adotados em campanhas contra o tabagismo.

“A ideia é fazer uma campanha como a gente fez contra os cigarros, contra o tabagismo. Para que não desenvolva um problema de saúde pública que, lá na frente, a gente não vai conseguir contornar”, explica ela.

Piovani X Virginia

A discussão ganhou força após Piovani compartilhar em sua rede social um vídeo de Juliana criticando a divulgação de plataformas de apostas. Na postagem, ele escreveu: "Virginia, a maldição vai colar em você, resvalará nos seus filhos, dinheiro de sangue, endemoniado".

Diante das duras críticas, Virginia também usou a internet para rebater Luana. Visivelmente emocionada, ela usou um trecho da Bíblia para "repreender” o que classificou como uma “praga” e disse que pretende recorrer à Justiça, especialmente após menções envolvendo seus filhos.

A troca de acusações dominou as redes sociais, na segunda-feira e durante toda essa terça-feira, e mobilizou milhões de usuários.

Apesar da intensidade da disputa entre as famosas e de também sofrer críticas, Juliana evita personalizar o debate.

“A ideia não é atingir nem Virgínia, nem X, nem Y. Ela acaba sendo esse canal de visibilidade”, reafirma. Para a auditora, o foco deve estar na responsabilidade coletiva e, principalmente, na atuação do poder público.

Dor coletiva

Juliana conta que a motivação para seu ativismo nasceu da própria tragédia familiar. Mestranda em políticas públicas, ela passou a estudar o tema após a morte do irmão.

“Aquilo ali [o vício] estava acontecendo na minha casa e eu não sabia. Eu não sabia quais eram as restrições de uma plataforma, o que o Brasil permitiu ou não permitiu. Como família, me senti muito incapaz de fazer alguma coisa diante do meu desconhecimento”, relembrou ela.

O irmão de Juliana tirou a própria vida em 21 de dezembro de 2025, após gastar R$ 109 mil em jogos. O valor era referente ao salário, férias e outros benefícios. Otacílio morreu com uma dívida de cerca de R$ 1,5 milhão.

A partir de um alerta publicado em suas redes sociais, Juliana começou a receber relatos semelhantes de outras famílias. Segundo ela, ao menos 25 casos de suicídio relacionados ao vício em apostas foram identificados, entre 2024 e 2025, por meio desses contatos.

“São pessoas que me contaram, compartilhando a sua dor. E aí fui triando a partir. Já era um problema de saúde pública. Não era apenas o que tinha acontecido com o meu irmão”, conta.

Efeitos na economia

A advogada também chama atenção para o impacto econômico das apostas. “Saiu uma pesquisa hoje dizendo que 146 bilhões são retirados do mercado local e gastos com bets”, destacou, apontando que o tema começa a ganhar respaldo em dados e estudos recentes. A reportagem tentou localizar a pesquisa citada por Juliana, mas, não encontrou.

Outro ponto de preocupação é o alcance cada vez maior dessas plataformas, inclusive, entre jovens. Ela cita a presença de mecanismos semelhantes a jogos de azar em ambientes digitais frequentados por crianças.

“Meu filho já jogou Roblox e eu nem imaginava que lá dentro tinha um modelo de cassino. A gente começa a entender que eles [criadores das plataformas] desenvolveram esse modelo que é feito para viciar mesmo”, aponta ela.

Brechas na regulamentação

Para Juliana, a regulamentação atual não acompanhou a velocidade com que o setor cresceu no país. Ela critica a ampliação do escopo das apostas para além das modalidades esportivas inicialmente previstas.

“O combinado era as apostas esportivas. E aí vieram juntos esses cassinos nas plataformas. A margem de lucro é muito maior nesse modelo”, disse.

Segundo a Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA), do Ministério da Fazenda, até este mês de abril, 85 empresas - somando 187 plataformas - estavam autorizadas a operar no país.

A auditora avalia que há instrumentos legais para mudanças mais rígidas, mas aponta falta de vontade política. “Eu não sei se falta vontade, mas falta coragem. Você enfrentar hoje uma empresa que é bilionária e que injeta muito dinheiro no Estado é complexo”, avalia.

Ainda assim, ela acredita que a pressão popular pode ser decisiva. “Quando a gente começa a dizer ‘eu não quero as bets’, a gente consegue movimentar. Hoje, a gente tem uma voz que vai além da imprensa, que são as redes sociais”, declara a ativista.

Luto em Luta

Desde a morte do irmão, Juliana tem usado as redes sociais para dar visibilidade ao problema e ampliar o debate sobre as consequências devastadoras das apostas online nas famílias brasileiras .

Transformando o luto em mobilização, Juliana vê na própria trajetória uma forma de manter viva a memória do irmão. “É por isso que eu falo do luto para a luta. Toda vez que eu ajudo alguém, eu sinto que levo uma luz para meu irmão”, afirma a advogada.

Enquanto a polêmica entre as famosas segue repercutindo, Juliana avalia que o conflito ajudou a dar visibilidade ao tema, já que, sem a repercussão, dificilmente o assunto teria alcançado tanta atenção pública.

Acredito que [a briga] deu visibilidade também à pauta. Porque, se não fosse assim, as pessoas não estariam falando sobre o tema. As pessoas não iam lá olhar as coisas que estavam acontecendo", finaliza a irmã de Otacílio Prates.