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Associação de músicos e produtores é criada para enfrentar desigualdades no setor de eventos na Bahia
Entidade reúne profissionais em Feira de Santana e promete atuar por mais transparência no uso de recursos públicos e valorização de artistas locais.
08/04/2026 14h20 Atualizada há 2 horas atrás
Por: Karoliny Dias Fonte: Boca de Forno News

Foto: Boca de Forno News 

A criação de uma nova associação que reúne empresários, produtores, artistas e bandas da Bahia marca um movimento de organização do setor cultural e de eventos: a APEM, Associação dos Produtores, Empresários e Profissionais da Música da Bahia. Em entrevista ao Boca de Forno News, o presidente da entidade, Guto Cerqueira, afirmou que a iniciativa surge para enfrentar desigualdades na contratação de artistas, especialmente no uso de emendas parlamentares, e garantir mais espaço e valorização para músicos locais.

Guto Cerqueira - Foto: Boca de Forno News 

Durante a primeira reunião oficial da associação, realizada em Feira de Santana, Guto Cerqueira destacou que o encontro representa o “pontapé inicial” para a atuação da entidade no estado. Segundo ele, a proposta é estruturar e dar representatividade a profissionais que, de acordo com sua avaliação, vêm sendo prejudicados na distribuição de recursos públicos destinados a eventos.

De acordo com o presidente, um dos principais problemas enfrentados atualmente é a forma como as emendas parlamentares estão sendo aplicadas no setor. Ele afirma que, em muitos casos, os recursos não chegam diretamente às prefeituras, mas são intermediados por produtores, o que gera, segundo ele, um cenário desigual para artistas locais.

Guto argumenta que bandas e músicos da região acabam competindo em desvantagem com atrações contratadas por meio dessas emendas, já que os recursos públicos facilitam a contratação de artistas de fora. “Fica inviável competir quando há dinheiro público envolvido”, pontuou.

Como estratégia, a associação pretende acompanhar a destinação desses recursos e, se necessário, acionar órgãos de controle, como o Ministério Público, para garantir mais transparência. A ideia, segundo ele, é rastrear a aplicação das verbas e evitar possíveis irregularidades na distribuição.

Outro ponto defendido pela entidade é a criação de critérios mais equilibrados para a realização de eventos financiados com recursos públicos. Entre as propostas está a definição de um teto para gastos com emendas em festas e a ampliação da participação de artistas locais na programação. Guto também criticou a prática de colocar músicos da cidade em horários de pouca visibilidade, o que, segundo ele, prejudica a valorização desses profissionais.

A associação já está formalizada, com CNPJ e estrutura administrativa em fase de consolidação. Neste momento, o foco está no cadastramento de associados e na implementação de serviços de apoio, como assessoria jurídica e contábil. A entidade também pretende incentivar a formalização dos profissionais, estimulando a abertura de empresas para que possam atuar de forma mais organizada no mercado.

O encontro reuniu participantes de diversas cidades baianas, como Esplanada e municípios da região de Feira de Santana, o que, segundo Guto, demonstra o interesse regional na proposta. A expectativa é que a associação amplie sua atuação e se torne um instrumento de articulação e defesa dos interesses do setor cultural e de eventos em toda a Bahia.

Enfrentar os desafios

Paulo Tear - Foto: Boca de Forno News 

Vice-presidente da associação em processo de criação, Paulo Tear também participou do encontro e defendeu a união da categoria como caminho para enfrentar os desafios do setor. Com cerca de 40 anos de experiência na área de produção de eventos, ele destacou que a organização coletiva é essencial para equilibrar as relações de mercado.

Para Paulo, a ausência de uma entidade representativa fortalece a concentração de oportunidades nas mãos de poucos. “Se não tiver uma associação em prol do grupo, a tendência é a manipulação do mercado continuar”, afirmou. Segundo ele, a atuação conjunta pode dar mais força aos profissionais, evitando que reclamações individuais resultem em prejuízos ou exclusão.

Entre as principais dificuldades apontadas está, novamente, a forma como as emendas parlamentares têm sido enviadas para a realização de eventos nas cidades. De acordo com o vice-presidente, a chegada desses recursos, muitas vezes intermediada por produtores, acaba concentrando a organização das festas em um único grupo. “Antes, quando a prefeitura fazia uma festa, vários empresários participavam. Hoje, um grupo só fecha tudo”, explicou. Na avaliação dele, esse modelo tem reduzido o espaço para artistas e produtores locais, favorecendo atrações de fora e dificultando a participação de quem atua durante todo o ano na região.

Paulo também criticou a perda de protagonismo de agentes políticos locais, como vereadores, que, segundo ele, poderiam contribuir mais na articulação para inclusão de artistas nas programações. Ele defende ainda maior atenção por parte das autoridades e órgãos de controle às demandas do setor.

Apesar das críticas, o vice-presidente ressaltou que a proposta da associação não é excluir, mas ampliar oportunidades. “É dividir o espaço. Tem trabalho para todo mundo”, disse. Para ele, a distribuição mais equilibrada dos recursos públicos destinados à cultura pode fortalecer toda a cadeia produtiva e evitar prejuízos a longo prazo.

Com trajetória iniciada na década de 1980, Paulo Teá afirma que a experiência acumulada reforça a necessidade de mudanças estruturais no setor. A expectativa, segundo ele, é que a associação consiga reunir profissionais, agregar conhecimento e atuar de forma efetiva na defesa dos interesses de músicos, produtores e empresários em toda a Bahia.

Artistas

Normilton Cunha - Foto: Boca de Forno News 

Entre os participantes da reunião estava o produtor musical Normilton Cunha Oliveira, que trabalha com o cantor Miqueias Almeida, destacou a importância da criação da associação como um instrumento de mudança no cenário atual da música na Bahia. Natural de Conceição do Coité e com cerca de três anos de atuação como produtor, ele acredita que a iniciativa pode trazer mais equilíbrio para o setor.

Para Normilton, a falta de organização e representatividade tem mantido um modelo concentrado, onde poucos grupos dominam o mercado. Segundo ele, a atuação da nova entidade pode ajudar a romper esse ciclo. “Se não tiver alguém que vá pra cima, vai continuar como sempre foi. Quem está no poder é quem comanda. Com a associação, a tendência é melhorar para todo mundo”, afirmou.

O produtor também chamou atenção para a dificuldade enfrentada por artistas independentes, especialmente na negociação de cachês e na inserção em grandes eventos. De acordo com ele, valores elevados e a concentração de contratações em determinadas produtoras acabam limitando o acesso de novos talentos ao mercado.

Ainda segundo Normilton, essa realidade desestimula investimentos na carreira musical, já que muitos artistas não conseguem espaço para se apresentar. Ele citou a experiência do próprio filho, que está há oito anos na estrada e, apesar do reconhecimento do público, ainda enfrenta obstáculos para se consolidar no circuito de shows. “Você investe, o artista é bom, o público gosta, mas não consegue espaço. Isso acaba desvalorizando o músico”, pontuou. Ele também relatou que o filho passou recentemente por uma temporada de apresentações fora da cidade, sendo bem recebido, o que reforça, segundo ele, o potencial dos artistas locais quando têm oportunidade.

Para Normilton, a união da categoria por meio da associação pode ser o caminho para garantir mais visibilidade, valorização e oportunidades para músicos e produtores em toda a Bahia.

Hebert Xavier - Foto: Boca de Forno News 

Outro participante da reunião, o músico Herbert Xavier, também reforçou a importância da criação da associação para fortalecer a categoria em toda a Bahia. Natural de Esplanada e com cerca de 14 anos de experiência na música, ele esteve em Feira de Santana acompanhando o início das atividades da entidade.

Na opinião de Herbert, a organização dos profissionais do setor pode representar mais segurança e melhores condições de trabalho para artistas que, atualmente, enfrentam dificuldades para se inserir no mercado. “É muito importante para que a gente tenha mais resultado e segurança para trabalhar”, afirmou.

Segundo o músico, um dos principais entraves está justamente no acesso às oportunidades, especialmente quando se trata de apresentações em eventos públicos. Ele relata que, muitas vezes, ao procurar prefeituras para oferecer shows, já encontra contratos previamente fechados com produtoras específicas, o que limita a participação de outros artistas. “Quando chegamos, já está tudo fechado por uma empresa. Não facilita para quem está de fora”, explicou. Na avaliação dele, esse cenário acaba prejudicando principalmente artistas locais que atuam de forma independente e buscam espaço no mercado.

Herbert acredita que a associação pode atuar justamente para mudar essa realidade, promovendo mais transparência e abrindo caminhos para que músicos tenham acesso igualitário às contratações. “Pode mudar sim”, disse, ao destacar a expectativa positiva em relação à iniciativa.

Zé Araújo - Foto: Boca de Forno News 

Com uma trajetória marcada por décadas dedicadas à música, o sanfoneiro Zé Araújo também participou da reunião e destacou a relevância da criação da associação para dar suporte aos artistas, especialmente os de pequeno e médio porte. Em sua fala, ele ressaltou as dificuldades enfrentadas ao longo dos anos para conseguir espaço no mercado, sobretudo em contratações realizadas por prefeituras.

Zé Araújo afirmou que o cenário atual tem desmotivado muitos profissionais experientes. Segundo ele, a concentração de contratos em produtoras específicas e a dificuldade de acesso às gestões municipais têm limitado as oportunidades. “Batemos na porta das prefeituras e muitas vezes já está tudo fechado, com a grade pronta”, relatou.

O sanfoneiro, que acumula cerca de 65 anos de carreira, disse que já chegou a pensar em encerrar as atividades devido às barreiras encontradas. Para ele, a falta de transparência e de abertura para artistas independentes tem sido um dos principais problemas enfrentados pela categoria.

Na avaliação do músico, a associação pode representar um avanço importante ao oferecer apoio jurídico e orientação profissional para os trabalhadores do setor. Ele acredita que a entidade pode ajudar a esclarecer como funcionam os processos de contratação e garantir mais equilíbrio nas oportunidades.

Apesar de reconhecer que em cidades como Feira de Santana enfrenta menos dificuldades, Zé Araújo destacou que a realidade em outros municípios da Bahia é mais desafiadora. Por isso, ele defende que a união dos artistas é essencial para fortalecer a categoria. “Precisamos dessa união forte. Quem não tem esse poder de estar na frente acaba ficando para trás, com muita dificuldade de trabalhar”, afirmou, ao reforçar a expectativa de que a associação contribua para melhorar as condições de atuação dos músicos em todo o estado.