O avanço dos transtornos mentais entre crianças e adolescentes tem acendido um alerta entre especialistas. Ansiedade, depressão e dependência de telas estão entre os principais problemas identificados atualmente, com impacto direto no comportamento, no desempenho escolar e nas relações sociais. O site Boca de Forno News resolveu procurar especialistas para entender mais sobre o assunto.
De acordo com a médica psiquiatra Camille Batista, os transtornos mais comuns na infância incluem ansiedade, transtorno desafiador opositor e o uso excessivo de telas, caracterizado como dependência virtual. Já na adolescência, além da ansiedade, há um aumento significativo dos quadros depressivos.
A especialista explica que casos que apresentam prejuízo funcional, como dificuldades no desempenho escolar, nas relações sociais ou sofrimento emocional intenso, devem ser avaliados por profissionais de saúde mental. “Nessas situações, é fundamental associar a avaliação psiquiátrica ao acompanhamento psicológico”, destaca.
Segundo Camille Batista, o aumento da demanda por atendimento em saúde mental ocorre tanto na rede pública quanto na privada, que hoje enfrentam superlotação. Ela aponta que esse cenário já era esperado como uma das consequências da pandemia da Covid-19. “Estamos vivendo a chamada quarta onda da pandemia, que é o adoecimento mental. O isolamento social, o excesso de tecnologia e a falta de interação impactaram profundamente o desenvolvimento emocional, especialmente dos mais jovens”, explica.
Sinais de alerta
A psicóloga Flaviane Dias ressalta que a identificação da necessidade de acompanhamento psicológico não se dá por um único sinal, mas por um conjunto de mudanças.
Entre os principais alertas estão:
• irritabilidade excessiva ou tristeza frequente
• apatia e desmotivação
• queda no rendimento escolar
• alterações no sono e no apetite
• isolamento social ou agressividade.
Em crianças menores, podem surgir regressões, como voltar a urinar na cama, ou dificuldade em expressar emoções. Já entre adolescentes, comportamentos de risco, conflitos constantes e desmotivação intensa são indicativos importantes. “O mais importante é observar a frequência, a intensidade e o impacto desses comportamentos na rotina”, orienta.
O ambiente familiar é apontado como fator determinante tanto no surgimento quanto no tratamento dos transtornos. Segundo Flaviane Dias, famílias que oferecem acolhimento, validam os sentimentos e estabelecem limites consistentes contribuem significativamente para a saúde mental. Por outro lado, contextos marcados por conflitos, comunicação fragilizada ou negligência emocional podem dificultar a evolução do paciente.
A psiquiatra Camille Batista reforça que, muitas vezes, os próprios pais também precisam de acompanhamento. “A psiquiatria da infância e adolescência sempre precisa olhar para a família. Em alguns casos, os pais também estão adoecidos e necessitam de cuidado”, afirma.
Tratamento
O acompanhamento psicológico é considerado essencial para trabalhar questões emocionais, sociais e ambientais. Em quadros moderados a graves, pode ser necessário o uso de medicação para controle de sintomas como ansiedade, alterações de humor e dificuldades de concentração.
Outro recurso importante, especialmente no atendimento infantil, é o uso de atividades lúdicas, como jogos, desenhos e brincadeiras. “A criança muitas vezes não consegue expressar o que sente com palavras, mas consegue comunicar através do brincar”, explica a psicóloga.
No caso dos adolescentes, estratégias interativas ajudam a fortalecer o vínculo terapêutico e tornar o processo mais eficaz.
Escola como espaço de acolhimento
Além da família, a escola também exerce papel fundamental no desenvolvimento emocional. Para Flaviane Dias, o ambiente escolar deve ir além do ensino acadêmico e atuar como espaço de escuta e acolhimento. “O psicólogo escolar contribui para que a escola seja um ambiente seguro, onde o aluno se sinta compreendido e respeitado. Aprender e se desenvolver emocionalmente precisam caminhar juntos”, afirma.
A especialista destaca ainda a importância da parceria entre escola e família para identificar precocemente os sinais de sofrimento e garantir o acompanhamento adequado.
Desafio crescente
Diante do aumento dos casos, especialistas reforçam que o cuidado com a saúde mental infantojuvenil exige atenção contínua, diagnóstico precoce e atuação conjunta entre família, escola e profissionais de saúde.
O cenário atual aponta para a necessidade de ampliar o acesso aos serviços e fortalecer a rede de apoio, garantindo que crianças e adolescentes recebam o suporte necessário para um desenvolvimento saudável.
Feira de Santana enfrenta alta demanda em atendimento
O fortalecimento da assistência em saúde mental infantojuvenil tem sido uma das prioridades da Fundação Hospitalar de Feira de Santana, especialmente por meio do atendimento ofertado no Ambulatório de Pediatria do Hospital Inácia Pinto dos Santos, conhecido como Hospital da Mulher. O setor de psicologia da unidade tem desempenhado papel fundamental no acompanhamento emocional de crianças e adolescentes atendidos pelo Sistema Único de Saúde (SUS).
Somente entre janeiro e março de 2026, foram realizados 159 acompanhamentos psicológicos e 241 novos agendamentos, evidenciando a crescente demanda por atendimento especializado. As consultas ocorrem às segundas, quartas e quintas-feiras, das 8h às 17h, contemplando pacientes de 5 a 17 anos.
De acordo com a presidente da Fundação Hospitalar, Gilberte Lucas, entre as principais demandas atendidas estão dificuldades de aprendizagem, ansiedade, além de casos de autismo e TDAH. Ela destaca que, apesar dos avanços, ainda há fila de espera, reflexo da alta procura por um serviço relativamente recente na rede pública.
“Existe fila devido à grande demanda, mas já estamos avaliando a ampliação da equipe para atender melhor a população”, afirmou.
O acompanhamento psicológico tem sido decisivo para a melhoria do comportamento e do desenvolvimento das crianças, sendo um processo que envolve também a participação ativa da família. Durante as sessões, são utilizados recursos lúdicos, como jogos, desenhos e pinturas, que auxiliam na expressão dos sentimentos e no desenvolvimento emocional dos pacientes. Além disso, os familiares também recebem suporte durante o tratamento.
Outro ponto importante é a integração com a rede de apoio, como escolas, CRAS, CAPS e unidades de saúde, que contribuem com encaminhamentos acompanhados de relatórios sobre o comportamento e as dificuldades observadas no ambiente escolar, garantindo um atendimento mais completo.
A Fundação Hospitalar também tem investido na ampliação dos serviços de saúde mental no município. Entre as iniciativas, estão o fortalecimento do ambulatório de psicologia infantil, o processo de contratação de um psiquiatra infantojuvenil e a implantação do serviço de saúde mental no ambulatório de saúde da mulher, que já conta com atendimento especializado.
Além disso, a instituição trabalha na estruturação de novas equipes para ampliar a assistência, incluindo a implantação de serviços voltados à saúde mental no distrito de Maria Quitéria, com foco também no atendimento à saúde do homem.