A possibilidade de reestatização da Refinaria de Mataripe, na Bahia, antiga Landulpho Alves (RLAM), ganhou força após declarações do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e reacendeu o debate sobre os impactos da privatização no estado. O tema foi detalhado pelo coordenador-geral da Federação Única dos Petroleiros (FUP), Deyvid Bacelar, durante entrevista ao site Boca de Forno News, em que também abordou o cenário internacional do petróleo, a alta dos combustíveis e sua pré-candidatura a deputado federal.
Segundo Bacelar, o anúncio mais relevante feito recentemente pelo governo federal ocorreu durante agenda na Refinaria Gabriel Passos, em Minas Gerais, onde Lula participou de um evento voltado a investimentos no setor. No entanto, o que mais repercutiu, especialmente entre os baianos, foi a sinalização sobre a recompra da refinaria localizada em São Francisco do Conde.
“Essa foi a notícia que mais trouxe alento ao povo baiano. A refinaria é a primeira da Petrobras no Brasil e a segunda maior do país. Foi privatizada em 2021 por um valor muito abaixo do mercado”, afirmou. A refinaria foi privatizada durante o governo Bolsonaro.
De acordo com o dirigente, a RLAM foi vendida por cerca de US$ 1,85 bilhão, embora estimativas apontassem valor entre US$ 3,6 bilhões e US$ 4 bilhões, valor considerado abaixo do mercado pela CGU. Atualmente, o ativo pertence ao fundo soberano Mubadala, dos Emirados Árabes Unidos, que, segundo Bacelar, já demonstrou interesse em negociar a venda. “Foi um presente dado aos árabes”.
Deyvid lembrou que Petrobras tem interesse na recompra e tudo indica que as negociações estão avançando. “Quem levou essa informação ao presidente Lula provavelmente foi a própria direção da empresa. Durante esse período de guerra, essas privatizações se aproveitam dos investidores desse fundo Mubadala, ganhando dinheiro nas costas dos baianos e baianas”, disse.
Bacelar fez duras críticas à privatização da refinaria e afirmou que os efeitos foram sentidos diretamente pela população baiana, especialmente no preço dos combustíveis. “Desde a privatização, já tivemos pelo menos cinco aumentos nos combustíveis praticados pela empresa que administra a refinaria. O diesel, por exemplo, saiu de cerca de R$ 3,60 para mais de R$ 5,52”, destacou.
Segundo ele, a Bahia passou a ter um dos combustíveis mais caros do Brasil, ficando atrás apenas do Amazonas, que também teve uma refinaria privatizada. “Isso não é coincidência. Onde houve privatização, o preço disparou. Aqui em Feira de Santana, por exemplo, já encontramos gasolina acima de R$ 7,20”, pontuou.
Para o líder sindical, a retomada da refinaria pela Petrobras teria impacto imediato na redução dos preços. “No momento em que a refinaria, os terminais e toda a logística voltarem ao controle da Petrobras, os preços tendem a se alinhar ao restante do país. A queda seria praticamente imediata”, afirmou.
Falta de controle na distribuição agrava cenário
Bacelar também atribuiu parte dos altos preços à privatização da BR Distribuidora e da Liquigás, que, segundo ele, enfraqueceu a capacidade de regulação do mercado. “Hoje, distribuidoras e redes de postos ampliam suas margens de lucro sem o mesmo controle. Isso pesa no bolso do consumidor”, disse.
Ele citou ainda medidas recentes que ampliam a fiscalização sobre o setor, incluindo a atuação de órgãos como ANP, Procon, Senacon e até da Polícia Federal para investigar possíveis abusos. “Lembro também que essas distribuidoras foram privatizadas no governo anterior (do ex-presidente Jair Bolsonaro) e quem está sofrendo com isso é a população de modo geral. Nessas privatizações houveram até mesmo contratos prejudiciais a Petrobras”.
Nesses contratos, ressalta Bacelar, existe uma cláusula contratual que impede a Petrobras de utilizar sua própria marca na distribuição de combustíveis até 2029. “É um absurdo. A empresa ficou proibida de usar marcas como Petrobras e BR por dez anos. Estamos questionando isso na Justiça”, afirmou.
Guerra pressiona mercado
Ao analisar o cenário global, Bacelar avaliou que os conflitos internacionais devem manter a pressão sobre os preços do petróleo. Seu desejo é que a guerra dos Estados Unidos contra o Irã acabe o mais rápido possível ou até nem deveria ter começado. Para ele, Donaldo Trump, presidente dos EUA, no desespero de atender o mercado interno estadunidense, que hoje tem um déficit de sete milhões de barris de petróleo por dia, a causou.
Por isso a invasão da Venezuela, maior reserva comprovada do mundo, Iraque, Kuwait, Siria e agora o Irã, para ter acesso ao petróleo. “É um país que é um grande gafanhoto do mundo, que precisa de petróleo e não pensa duas vezes em fazer qualquer tipo de invasão ou guerra”.
Ele destaca que, infelizmente, tudo indica que a guerra vai continuar e os preços do barril do petróleo, dos combustíveis, devem subir ainda mais. “O barril do petróleo chegou a cair para cerca de 60 dólares antes da guerra. Bateu 120, desceu para 90, subiu de novo para 114, o que dá um repique em todo o mercado internacional, gerando impacto direto nos combustíveis”, explicou. Ou seja, a tendência é de manutenção da alta enquanto houver instabilidade geopolítica.
Pré-candidatura e projeto político
Durante a entrevista, Bacelar confirmou que será pré-candidato a deputado federal nas eleições de 2026 pelo PT em Feira de Santana. Segundo ele, a decisão foi construída coletivamente, com apoio da CUT e da direção nacional do partido. “É um projeto coletivo, que assumi com muita responsabilidade, que busca renovar a representação no Congresso com alguém que vem do chão da fábrica, que conhece a realidade do trabalhador”, afirmou.
Ele informou que deixará a presidência da FUP em abril para cumprir o processo de desincompatibilização exigido pela legislação eleitoral. “Queremos tratar, no Congresso Nacional, de temas da geração de emprego e renda, qualificação profissional, a necessidade e o cuidado para que as pessoas tenham moradia digna, saúde e educação de qualidade, a transição energética que precisa ser justa no Brasil”.
A meta, segundo Bacelar, é alcançar cerca de 110 mil votos.
Disputa com Zé Neto
Sobre o cenário político em Feira de Santana, Bacelar rejeitou qualquer ideia de disputa direta com o deputado federal Zé Neto (PT), principal nome da cidade na Câmara. “Não há disputa. Voto nele desde os meus 20 anos de idade, quando ele foi candidato a vereador pelo PT na cidade. Zé Neto é um grande companheiro, sempre teve meu apoio e será reeleito. Feira tem mais de 430 mil eleitores e pode eleger mais de um deputado federal”, disse.
Ele defendeu que o município está sub-representado em Brasília e relembrou momentos históricos em que a cidade teve mais representantes. “A cidade já elegeu até quatro deputados federais no passado. Não faz sentido hoje ter apenas um, sendo que é uma das maiores cidades da Bahia”, argumentou.
Críticas ao sistema político
Bacelar também fez críticas ao atual modelo político e ao Congresso Nacional, afirmando que grande parte dos parlamentares não representa os interesses da população. “As pessoas estão cansadas de políticos que só aparecem de quatro em quatro anos ou que compram votos. Existe um cansaço muito grande com esse modelo”, declarou.
Apesar disso, ele reconhece os desafios de enfrentar o poder econômico nas eleições, mas aposta na conexão com o eleitorado. “Estamos enfrentando estruturas muito fortes, mas temos visto uma receptividade grande das pessoas, que querem mudança de verdade”, concluiu.
A possível reestatização da Refinaria de Mataripe, somada ao cenário eleitoral em construção, coloca o setor de petróleo e a política baiana no centro das atenções, com impactos diretos na economia e no cotidiano da população.