O fechamento do Estreito de Ormuz pode impactar os preços dos combustíveis no Brasil. Essa ideia é verificada por meio da análise dos efeitos da interrupção temporária do abastecimento mundial de petróleo e seus derivados, o que gera uma reação do mercado de combustíveis brasileiro. Emergência, escassez e incerteza são termos que têm descrito o contexto atual desde a pandemia de Covid-19.
Em um cenário de crescente volatilidade, o fechamento temporário do Estreito de Ormuz é mais um evento com potencial de forte repercussão no mercado internacional de combustíveis, um dos elos mais vulneráveis da cadeia de abastecimento. O estreito é a principal rota de navegação de petroleiros do mundo, responsável por aproximadamente 20% do volume global de petróleo e por 30% do total de derivados.
No Brasil, a ganância dos empresários do setor de combustíveis faz com que, ao surgir a possibilidade de uma nova elevação no preço do petróleo, os preços na bomba já aumentem mesmo antes de um novo abastecimento ser realizado nas unidades de vendas.
A ganância empresarial pode ser entendida como uma disposição de empresas, ou de seus gestores, a buscar maximização de lucro sem relação com os custos reais da operação. É um fator que sempre pode acontecer, mas não necessariamente se acentua em todos os momentos. Sua influência se revela nos preços cobrados ao consumidor com um aumento superior ao que seria justificado pelas variações do custo de produção, quando se desconsidera o lucro, claro.
Os precificadores dos produtos analisados são muito mais as empresas privadas que os órgãos reguladores. Isso porque não há uma instância privada do poder da oferta, que atue como contrapeso à força da demanda, a do consumidor. Dessa forma, um aumento de preço em um instante de demanda aquecida e sem um volume disponível adequado de produto para atender a tal demanda pode muito facilmente ser visto como oportunismo. Em última instância, o custo de produção é diretamente proporcional ao que o consumidor conseguirá pagar, já que o mercado tende a se equilibrar lá e não em outro lugar.
No caso da gasolina, do etanol e do diesel, tudo isso acontece em um mercado muito concentrado e com apenas uma fonte de informação a respeito do preço que o consumidor paga. A comunicação de preços para a sociedade normalmente é feita em uma única direção: do fornecedor para o consumidor. Desse modo, quando o consumidor é chamado a costumeiramente ouvir sobre aumento de preços, mas raramente sobre diminuição, é natural que a interpretação desse aumento seja de cunho negativa.
Uma situação hipotética ajuda a entender melhor o impacto da ganância empresarial. Se a margem de lucro das distribuidoras e dos postos, em preço real, fosse a mesma do período de 2015 a 2018, período anterior à paralisação de 2018 e aos desastres de 2020, mas os reajustes de preço fossem os mesmos observados de 2019 a 2022, automaticamente o consumidor estaria pagando menos R$0,58 por litro de gasolina, menos R$0,41 por litro de etanol e menos R$0,28 por litro de diesel.
Os preços dos combustíveis no Brasil reagiram às notícias sobre o fechamento do Estreito de Ormuz. O preço da gasolina subiu e voltou a cair, o do etanol aumentou e o do diesel, depois de uma queda, voltou a subir. Com isso, o spread entre preços subiu e o da gasolina sobre o preço do etanol chegou a valores recordes. A volatilidade diária dos preços de todos os combustíveis aumentou, mas muito mais a da gasolina. As expectativas dos agentes também foram alteradas e a curva a termo dos combustíveis adquire formato de dobra. No geral, o fechamento do estreito não provocou nenhum mecanismo na estrutura que pudesse garantir a ausência de riscos para a operação do mercado.
Por Alberto Peixoto