As tensões entre os Estados Unidos e o Irã, que se acumulam desde a Revolução Iraniana, devem se intensificar agora com a morte do general Qassem Soleimani. O governo Trump parte para uma ação militar contra o regime iraniano sob a justificativa de conter um suposto avanço do Irã na direção da posse de armamento nuclear.
Os impactos da guerra deverão ser considerados em termos de política externa, política econômica, política energética, comunicações, mensagens internas e externas e, em particular, na conjuntura política e econômica do Brasil. São esperadas repercussões no preço do petróleo, na volatilidade dos mercados financeiros, na dinâmica das cadeias globais de suprimento, no comércio internacional e na política de defesa. Uma guerra pode levar a perdas e a outros efeitos negativos no Brasil.
O comércio brasileiro, em particular, poderá sentir os custos associados ao fechamento de estreitos e canais que conectam regiões onde, no momento, a logística é integral. O Brasil já importa produtos que têm o custo do frete elevado, por causa da distância em relação aos centros de produção. Esse custo pode ficar ainda maior se, por exemplo, o canal de Suez também for fechado.
O comércio brasileiro é dependente de outros mercados. A guerra, ou mesmo apenas o aumento da tensão, pode levar a quedas ou a retardamentos em mercados que hoje são compradores importantes, como o da China, ou que constituem uma oportunidade de negócios, como o da Índia. Essas quedas ou retardamentos podem atingir produtos que estão com a demanda mais intensa, como os agrícolas.
As escaladas de tensões entre o Irã e os EUA, ainda que ocorram a milhares de quilômetros do Brasil, podem gerar perdas diretas para o comércio exterior brasileiro. As trocas comerciais entre os dois países são modestas e concentram-se em produtos específicos, mas a logística, ainda frágil após a pandemia, está sujeita a interrupções.
Por outro lado, como o Brasil depende de mercados externos, especialmente na área agrícola, qualquer alteração nos preços, como a alta do preço do petróleo russo-iraniano ou do Brent, pode trazer impactos. Se a guerra se intensificar e o preço do combustível disparar, o Brasil deve enfrentar, além de custos de frete elevados, diminuição da demanda dos EUA, por conta de inflação em energia e aumento dos juros e perdas nas exportações de algodão e milho.
É preciso mapear empresas brasileiras que tenham operações fora do Brasil e que possam ser afetadas por essa guerra direta ou indiretamente. Os principais riscos nessas operações incluem a demanda dos seus produtos ou serviços, o aumento dos custos de crédito (em função de juros mais altos para os EUA e risco-país em alta), problemas com a cadeia de suprimento (principalmente a parte que vem da Ásia), a capacidade de transitar livremente pelo espaço financeiro internacional sem riscos de sanções e, na eventualidade de uma sanção, a capacidade de se adequar a isso.
O Brasil não é um inimigo dos EUA nem do Irã. Embora o País tenha alinhado seu posicionamento com o dos EUA não está diretamente envolvido na guerra. Para as empresas que têm operações internacionais isso reduz a exposição à sanção de seus clientes e fornecedores. No entanto, essas empresas são responsáveis por mais de 20% do PIB e, se a guerra afetar mesmo que indiretamente a venda de seus produtos e/ou serviços para o resto do mundo, o Brasil vai sentir. É um efeito de contágio normal no mundo globalizado.
Embora seja impossível prever o resultado desse conflito ou da eventual reação do Irã, algumas consequências para a economia brasileira podem ser delineadas. De forma abrangente, as perdas mais relevantes estão associadas à energia, ao comércio e à política financeira.
Por Alberto Peixoto