Quem depende de medicamentos de uso contínuo precisa ficar atento. A partir de 1º de abril, os remédios vendidos no Brasil terão reajuste anual autorizado pelo governo federal, com aumento que deve variar entre 1,9% e 4,6%, conforme a fórmula definida pela Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos (CMED). Diante da alta prevista, especialistas alertam que este é o momento ideal para o consumidor pesquisar preços, aproveitar estoques com valores antigos e adotar estratégias que ajudam a economizar - desde comparar farmácias até conversar com médicos e farmacêuticos sobre alternativas mais acessíveis.
O reajuste ocorre todos os anos e segue regras que consideram inflação, produtividade da indústria farmacêutica e níveis de concorrência no mercado. O impacto do reajuste é ainda mais sensível porque grande parte dos medicamentos mais consumidos no Brasil é de uso contínuo. Levantamentos do mercado farmacêutico mostram que remédios utilizados no tratamento de hipertensão, diabetes e colesterol lideram as vendas nas farmácias do país. Entre os mais procurados estão substâncias como losartana, hidroclorotiazida, enalapril, sinvastatina e metformina, utilizadas por milhões de brasileiros diariamente.
Apenas a losartana, indicada para controle da pressão arterial, já ultrapassou a marca de dezenas de milhões de caixas vendidas em levantamentos recentes do setor, refletindo o peso das doenças cardiovasculares no país. Especialistas apontam que justamente esses medicamentos, por serem de uso contínuo, acabam ampliando o impacto de qualquer reajuste anual no orçamento das famílias.
Em Salvador, a expectativa do reajuste já começa a alterar o comportamento de consumidores. Em farmácias da Avenida Sete de Setembro, uma das áreas comerciais mais movimentadas da capital baiana, farmacêuticos relatam que alguns clientes têm antecipado a compra de medicamentos para tentar escapar do aumento.
“Quando começa a sair notícia de reajuste, muita gente pergunta logo se vai subir e tenta comprar antes. Isso acontece principalmente com quem usa medicamento contínuo”, relata o gerente João Ricardo Sena.
O diretor-secretário-geral do Conselho Federal de Farmácia, Gustavo Pires, explica que o reajuste anual segue regras do mercado farmacêutico brasileiro e funciona como um mecanismo de controle de preços.
“É uma praxe que acontece conforme as regras todo ano, que nada mais serve do que repassar para os medicamentos a inflação do período. No Brasil, a maioria dos medicamentos tem preço controlado até o máximo ao consumidor. Então esse índice é aplicado à tabela de preço máximo. Sempre é regulado a partir do preço máximo, nunca do preço mínimo. A partir daí vem a regra de mercado”, afirma.
Segundo ele, o consumidor pode adotar algumas medidas simples para reduzir o impacto do reajuste no bolso. “O que recomendamos é que o consumidor esteja sempre atento a pesquisar os preços antes de fazer a aquisição do medicamento. Hoje existem ferramentas importantes para isso, inclusive na própria internet. É possível entrar no site das farmácias e também utilizar comparadores de preços”, orienta.
Outra estratégia é conversar com o médico responsável pelo tratamento. “Em alguns casos, o paciente pode conversar com o prescritor sobre a possibilidade de utilizar medicamentos manipuláveis, que em muitas situações podem ter custo menor”, explica.
Também vale buscar orientação diretamente no balcão da farmácia. “É importante conversar com o farmacêutico para saber se aquele medicamento faz parte de algum programa como o Farmácia Popular ou de programas de desconto dos próprios laboratórios. Em alguns casos, os descontos podem chegar a até 75%”, acrescenta.
Estoques - Uma informação pouco conhecida pelos consumidores é que o reajuste autorizado pela CMED nem sempre aparece imediatamente nas prateleiras das farmácias.
Segundo Gustavo Pires, isso acontece porque muitos estabelecimentos ainda possuem estoque adquirido antes da atualização da tabela de preços. “Como algumas farmácias ainda têm estoque antigo, o preço reajustado pode demorar um pouco para aparecer. Em alguns casos, os estabelecimentos conseguem manter o valor anterior por até 90 dias”, explica.Por isso, pesquisar preços em diferentes farmácias pode fazer grande diferença no valor final pago pelo consumidor.
Pacientes já tentam se antecipar: planejamento evita sustos no bolso
Especialistas reforçam que planejamento, pesquisa de preços e orientação farmacêutica são as principais ferramentas para enfrentar o reajuste anual dos medicamentos.
Em Salvador, a movimentação nas farmácias já mostra que muitos consumidores preferem se antecipar para evitar pagar mais caro nas próximas semanas. Para quem depende de tratamento contínuo, a lógica é simples: informação e organização podem fazer diferença — tanto na saúde quanto no bolso.
A aposentada Maria de Lourdes Santos, 67 anos, moradora da Liberdade, utiliza medicação diária para diabetes e pressão arterial. Sempre que ouve falar em reajuste, tenta se antecipar. “Eu tomo remédio todo dia. Quando dizem qe vai aumentar, eu tento comprar duas caixas logo para garantir o mês seguinte”, conta.
Situação semelhante vive o motorista Antônio Silva, de 45 anos, que faz tratamento para colesterol e hipertensão. “Remédio já virou despesa fixa. Quando aumenta, a gente precisa reorganizar o orçamento para continuar comprando”, afirma.
Segundo farmacêuticos ouvidos pela reportagem, medicamentos voltados ao tratamento de doenças crônicas são justamente os que mais pesam no orçamento das famílias.