A professora da Universidade do Estado da Bahia (UNEB) e pesquisadora do Bembé do Mercado desde 1997, Ana Rita Machado, celebrou com emoção o vice-campeonato da Beija-Flor de Nilópolis no Carnaval do Rio de Janeiro, que levou para a Marquês de Sapucaí o enredo inspirado no Bembé do Mercado, tradicional manifestação afro-religiosa de Santo Amaro, no Recôncavo Baiano.
Para a docente, que é autora da primeira pesquisa acadêmica que sistematiza o que é o Bembé, o resultado teve “sabor de primeiro lugar”. “Nós ficamos extremamente felizes. Aquele segundo lugar para nós é como se fosse o primeiro. Só perdemos por um décimo. Faz parte. Só temos gratidão”, afirmou.
Pesquisa que virou patrimônio
Ana Rita acompanha e pesquisa o Bembé desde a especialização, defendida no início dos anos 2000, e deu continuidade ao estudo no mestrado. Seu trabalho serviu de base para o reconhecimento da manifestação como Patrimônio Imaterial da Bahia, pelo IPAC, em 2012, e Patrimônio Imaterial do Brasil, pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), em 2019.
Segundo a professora, o vínculo com a comunidade sempre foi permanente. Em 2014, durante licença sabática, ela ajudou a fundar, junto aos moradores, a Associação Bembé do Mercado, fortalecendo a organização da celebração já reconhecida oficialmente como patrimônio cultural.
Enredo construído com diálogo
De acordo com Ana Rita, o contato com a escola de samba aconteceu no início de 2025, quando a Beija-Flor buscava um tema para o Carnaval. Após tentativas iniciais de contato institucional, a agremiação chegou até a comunidade de Santo Amaro e à pesquisadora, a partir do trabalho acadêmico já publicado.
Ela faz questão de ressaltar que o mérito da construção do enredo é do carnavalesco João Vitor Araújo. “O enredo foi totalmente construído por João Vitor de Araújo. Tivemos muito diálogo, muita troca, mas a concepção, a construção do que foi apresentado na avenida é mérito dele, que de maneira extraordinária transformou a base da pesquisa em um espetáculo lindo”, declarou.
A troca envolveu viagens ao Rio de Janeiro, visitas da equipe da escola à Bahia, encontros com integrantes do Candomblé, do Maculelê, do Nego Fugido e de outras expressões culturais da região. “Foi um processo intenso, técnico, mas também afetivo. Houve muito respeito e seriedade com a pesquisa e com a comunidade”, destacou.
O que é o Bembé do Mercado
O Bembé do Mercado é uma manifestação afro-religiosa realizada desde 1889, na Ponte do Xaréu, em Santo Amaro. A celebração foi idealizada por João Obá, ancestral que decidiu ocupar o espaço público para manifestar sua fé e gratidão pela abolição da escravidão.
Segundo Ana Rita, trata-se essencialmente de um Candomblé realizado em espaço público, com a participação de diversas expressões culturais da cidade, como o Maculelê, a capoeira, o Nego Fugido e os Caretas de Acupe. “É uma obrigação religiosa para o povo de terreiro, mas também uma celebração que narra como as populações negras enfrentaram e vivenciaram o pós-abolição”, explicou.
Ela lembra que, ao longo do século XX, houve conflitos com setores da elite local que tentaram retirar a festa do espaço público. Mesmo diante de tensões, acidentes e enchentes, a comunidade manteve a celebração, reforçando seu caráter religioso e identitário.
Desfile emocionante na Sapucaí
Ao assistir à apresentação da Beija-Flor na Marquês de Sapucaí, Ana Rita relata ter se emocionado com a desenvoltura da escola. “A escola estava muito linda. Cada ala muito bem cuidada. A concepção incrível. Houve total respeito à celebração do Bembé do Mercado e às manifestações culturais de Santo Amaro”, afirmou.
Ela destacou a representação de grupos como Nego Fugido, Maculelê e Caretas de Acupe, além da valorização da própria Associação Bembé do Mercado e da comunidade retratada em carro alegórico.
Para a professora, o acolhimento do público carioca foi marcante. “O Rio de Janeiro nos tratou com muito cuidado, carinho e elegância. A Beija-Flor, uma escola campeã, teve um grande acolhimento conosco. Só temos gratidão”, disse.
Apesar do vice-campeonato, Ana Rita reforça que o desfile já entrou para a história. “Gabaritamos em tudo. Perdemos por um décimo. São coisas da vida. Para nós, foi só felicidade, glória e amor no coração. E vamos para a próxima", finaliza.