Cultura Crônica da semana
Engajamento político e prioridades da população no Brasil
Por Alberto Peixoto
14/02/2026 08h38
Por: Karoliny Dias Fonte: Alberto Peixoto

Foto: Data Policy

O engajamento político é definido como a disposição da sociedade de se manter atenta e ativa em suas interações com as instituições e com seus representantes, de modo a cobrar o cumprimento dos interesses e das demandas públicas. O interesse explícito, repetido e constante em se manifestar sobre as prioridades reais da população pode, em um jogo de pressão e oferta, forçar os representantes a dar a devida atenção a essas demandas e a atendê-las.

O engajamento político, portanto, diz respeito ao interesse da população na fiscalização e na cobrança das ações de seus representantes, não apenas nas épocas de eleições, mas diariamente. Como na maioria das interações humanas, o engajamento e a cobrança constantes tornam a relação mais produtiva e saudável. A população, no entanto, não deve se limitar a cobrar suas prioridades apenas aos seus representantes.

A participação em canais institucionais, em consultas públicas e em outros espaços de escuta da administração pública deve sempre ser estimulada, bem como a consulta frequente aos dados de acompanhamento à execução e aos resultados das políticas públicas.

A falta de interesse dos políticos pelas necessidades da população resulta da não observância do que a grande maioria deseja, mesmo que o engajamento político e a motivação cotidiana estejam em baixa. Em geral, a população brasileira não confia nas instituições e não participa das atividades políticas e sociais. Essa ausência de participação contínua, somada à demanda por políticas públicas visíveis e para um público específico, expõe o não atendimento das necessidades mais básicas da população e o cumprimento de apenas uma parte do princípio da representatividade.

Os serviços públicos não funcionam, a população não se sente segura e a saúde e a educação estão em péssimas condições, mas as questões do dia a dia são deixadas de lado tanto pela população quanto pelos gestores públicos. A quantidade de votos nulos e brancos nas eleições, a baixa participação nas consultas públicas e os pedidos de redução do número de vereadores, ao invés de fortalecer a democracia local, diminuem ainda mais o diálogo com as bases.

Fica evidente, então, que a população não está satisfeita com os serviços prestados e com a qualidade de vida, mas a mudança passa longe da exigência dessas prioridades. É possível compreender essa situação através de ações simples do cotidiano da população.

As consequências da falta de interesse dos políticos na população são evidentes e frequentemente reforçam essa inércia. Quando a maior parte da sociedade não confia numa relação bidirecional com seus representantes, as pessoas tendem a participar cada vez menos do processo político. Essa ausência de engajamento resulta na deterioração da já frágil institucionalidade, e a ineficiência nos serviços públicos, educacionais e de saúde, por exemplo, tende a aumentar.

Um ciclo perverso se estabelece, no qual a implementação de políticas públicas se torna ainda mais complicada. Sem serviços básicos de qualidade, o cidadão não participa, não responde e não se importa com as propostas que exigem maior engajamento, e, assim, o ciclo se repete. Às vezes, quando as necessidades básicas são atendidas e há uma relativa ordem social, as pessoas exigem políticas muito mais visíveis, mas que não atendem necessariamente a todos e podem deixá-las em uma posição ainda mais vulnerável.

O engajamento político e as prioridades da população devem orientar as ações públicas. A política é uma atividade humana que envolve decisões coletivas e busca a defesa do bem comum. Políticas públicas visíveis e que atraem a atenção da população são importantes. No entanto, o descaso com demandas de assistência social, educação, saúde, segurança, transporte e fornecimento de serviços básicos, como água tratada e tratamento de esgoto, é preocupante.

A saúde, a segurança e a educação têm grande impacto no cotidiano das pessoas e, quando não atendidas, a confiança no sistema político é minada. Isso resulta na apatia da população e na baixa participação em ações de fiscalização, além de enfraquecer a institucionalidade.

A política é uma atividade humana que envolve decisões coletivas e busca a defesa do bem comum. Quanto mais as instituições e os políticos se afastam do lado mais visível e cotidiano da política, mais distante também a sociedade parece das instituições e da política. Isso resulta em baixa confiança nas instituições e no sistema político, o que, por sua vez, desestimula a participação em processos de fiscalização e avaliação. Portanto, ações simples e contínuas que mantenham a pressão sobre os políticos e estimulem a participação da população são essenciais para mudar esse quadro.

Por Alberto Peixoto