O criminoso sexual Jeffrey Epstein tentou se aproximar de empresários e investidores brasileiros para tratar de negócios, mostram documentos divulgados pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos.
André Esteves (banqueiro do BTG Pactual), Armínio Fraga (ex-presidente do Banco Central), Eike Batista (que fundou o Grupo EBX), Jorge Paulo Lemann (sócio da 3G Capital e um dos fundadores da Ambev) e Luiz Fernando Levy (ex-presidente do jornal "Gazeta Mercantil") são alguns dos brasileiros mencionados nos arquivos que mostram conversas de Epstein ou de Ghislaine Maxwell, que foi cúmplice dele, com intermediários.
Os diálogos sugerem encontros para a discussão de negócios que não são especificados. Não há confirmação de que as reuniões ocorreram. Tampouco existe qualquer indício de que os empresários brasileiros tiveram algum envolvimento ou mesmo ciência dos crimes cometidos por Epstein e Maxwell.
Epstein foi condenado em 2008 por solicitação de prostituição de uma menor. Também foi acusado de comandar uma rede de tráfico sexual. O financista foi encontrado morto em 2019, antes de ser julgado. No Brasil, documentos mostram que ele discutiu a compra de agências de modelos para "ter acesso a garotas".
Os brasileiros são mencionados pela primeira vez em um email de dezembro de 2002. O remetente, chamado Marcelo de Andrade, sugere a Maxwell encontros com os empresários e apresenta a ela uma pequena biografia de cada um deles. Meses depois, em março de 2003, Andrade escreve outra mensagem dizendo já ter iniciado os contatos com Armínio Fraga, Jorge Paulo Lemann e Luiz Fernando Levy. O título da conversa é "Visita ao Brasil".
Os documentos divulgados pelo governo americano sugerem que empresários brasileiros chegaram a se encontrar com intermediários de Epstein no Brasil. Em abril de 2012, o lobista britânico Ian Osborne comunicou Epstein sobre uma reunião que faria com Esteves. "Acabei de pousar em SP. Pegando um helicóptero para encontrar André Esteves. Ligo para você quando terminar", escreveu ele na mensagem.
Minutos após o email de Osborne, Epstein responde perguntando sobre a agenda de outros empresários, incluindo a de Eike.
Osborne é um intermediário que, ainda de acordo com os documentos, conectava Epstein a empresários. Ele também conversou com o financista sobre Batista ao longo de todo o ano de 2012, inclusive citando negócios e reuniões que teriam tido participação dos três.
Como mostrou a Folha, Epstein também convidou Eike para um almoço com o bilionário Elon Musk na sua ilha no Caribe. Nenhum dos documentos aponta contato direto entre o brasileiro e o financista, que teriam se comunicado apenas por intermediários.
Em outro dos arquivos, datado de outubro de 2013, Boris Nikolic, também intermediário de Epstein e que foi assessor do filantropo Bill Gates, escreve ao financista sobre um encontro de cinco horas que ele teve com Lemann. Na conversa, o emissário diz que o brasileiro se ofereceu para investir em um negócio que não é especificado. "Ele também disse que poderia trazer vários outros amigos bilionários para participar", diz trecho do email.
Por telefone, Fraga afirmou à Folha nesta quinta (12) que nunca conheceu Epstein nem seus intermediários. Ele disse supor que seu nome tenha sido sugerido para uma reunião com o financista porque à época ocupava o cargo de presidente do Banco Central, no segundo mandato de Fernando Henrique Cardoso (1998 - 2002).
A assessoria de André Esteves escreveu, em nota, que o banqueiro também não se encontrou com Epstein.
A equipe de Eike, por sua vez, disse que o empresário "não conhece, nunca conversou e nunca foi à ilha ou trocou mensagens" com o financista, embora tenha conhecido Ian Osborne para tratar de negócios.
"No início da década passada, quando Eike estava entre os sete maiores bilionários do planeta, muitos investidores internacionais o procuravam [...]. Entre estes investidores internacionais estava Ian Osborne, mas as propostas dele não tiveram qualquer resultado concreto", diz o comunicado.
A assessoria de Jorge Paulo Lemann, que aparece em conversas do financista com Boris Nikolic, também escreveu que o empresário nunca conheceu Epstein.
"Boris Nikolic foi o principal assessor científico de Bill Gates e apresentado por ele a Jorge Paulo Lemann. Não havia nenhuma relação conhecida entre Boris Nikolic e Jeffrey Epstein, tampouco o nome de Epstein foi citado na ocasião", diz trecho da nota.
Além de empresários e investidores, políticos, personalidades e um arquiteto brasileiro são mencionados nos arquivos Epstein. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), por exemplo, aparecem em 62 e 65 arquivos, respectivamente —sem considerar buscas pelos nomes com erros de digitação.