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Lula recalibra política externa e busca aproximação com governos de direita
Estratégia do Planalto aposta em pragmatismo diante do novo cenário na América Latina e da agenda internacional de Donald Trump.
29/01/2026 08h18 Atualizada há 4 horas
Por: Karoliny Dias Fonte: Estadão
Foto: Ricardo Stuckert/PR

O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva recalibrou a política externa para reforçar uma face de pragmatismo e tentar se aproximar de governantes de direita, diante de um cenário adverso na América Latina, com a nova estratégia de segurança nacional de Donald Trump e a ascensão de governantes alinhados ao americano.

A estratégia já está em curso e será priorizada pelo Itamaraty ao longo do primeiro semestre, antes das eleições presidenciais. Nesse período, Lula pretende fazer alguns deslocamentos ao exterior. O governo já mobilizou o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, para estreitar laços em viagens precursoras ou mesmo próprias, levando a visão do Palácio do Planalto.

Em ano eleitoral, Lula quer reforçar uma imagem mais pragmática da política externa e evitar desgastes em temas sensíveis, como a Venezuela.

Na segunda-feira, dia 26, Lula conversou por quase uma hora ao telefone com Donald Trump, em mais uma etapa da construção de um relacionamento marcado por interesses opostos e um passado recente de embates. Eles agendaram para o fim de fevereiro uma visita de Lula a Washington, oportunidade que poderá selar a mudança de rota com os Estados Unidos de Trump.

Na terça-feira, dia 27, Lula desembarcou no Panamá para dar mais mostras da presença brasileira na região e dizer aos líderes latino-americanos que está disposto a trabalhar com todos, independente de ideologia, e em projetos concretos.

O presidente vai reforçar a visão que expôs em artigo ao The New York Times, uma proposta alternativa à repaginação da doutrina Monroe, sugerida por Trump, e defende que o hemisfério pertence a todos, contra a ideia de “quintal” americano.

A chancelaria brasileira trabalhou nos bastidores para que, durante a viagem à Cidade do Panamá, uma forma de retribuir as visitas do presidente José Raúl Mulino, Lula consiga manter as primeiras reuniões bilaterais com os novos presidentes do Chile, José Antonio Kast, e da Bolívia, Rodrigo Paz. Ambos de direita, eles derrotaram a esquerda em eleições recentes e não tinham relações prévias com o petista.

 A reunião com Kast foi um dos primeiros compromissos de Lula no Panamá. Ele assumirá o cargo em março, sendo o primeiro presidente eleito no país com a imagem vinculada a elogios passados à ditadura chilena de Augusto Pinochet. Ele é aliado do ex-presidente Jair Bolsonaro e crítico frequente de Lula, a quem associou à corrupção.

 “Os desafios da América do Sul em matéria de segurança, progresso econômico e superação da pobreza são enormes e a colaboração de Estado, entre Chile e Brasil, pode liderar a mudança que nossa região necessita. Agradeço a reunião construtiva com o presidente Lula”, registrou Kast, em suas redes sociais.

“Reiteramos a importância de manter e aprofundar as relações bilaterais entre Brasil e Chile, destacando a disposição de ampliar a cooperação em áreas como infraestrutura, energia renovável, comércio e turismo”, disse Lula, ao divulgar fotos e vídeos do encontro.

“Enfatizei que o programa Rotas de Integração Sul-americana está estruturando dois corredores bioceânicos que utilizarão portos chilenos para facilitar a integração entre Brasil, Bolívia, Paraguai, Argentina e Chile, fortalecendo a conectividade regional. Tratamos ainda da necessidade de promover a estabilidade regional, reforçar a segurança pública e intensificar ações conjuntas de combate ao crime organizado, reconhecendo a importância da cooperação para enfrentar desafios comuns”, citou o brasileiro.

Agora, Lula também esperar conversar com Paz, que encerrou duas décadas de domínio do Movimento ao Socialismo na política boliviana.

Integrantes do governo pregam internamente que o presidente pratique uma política externa despida de qualquer “verniz ideológico” e que não pode permitir a formação de um “Grupo de Lima” contra o Brasil - uma referência à aliança de direita que funcionou como um foro de articulação política contra o ditador Nicolás Maduro, na Venezuela.