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Pandemia? Infectologista explica riscos de novo surto viral no Brasil
Casos de pessoas infectadas pelo vírus Nipah, na Índia, têm preocupado autoridades.
28/01/2026 07h40 Atualizada há 3 horas
Por: Karoliny Dias Fonte: A Tarde
Cerca de 110 pessoas foram colocados em quarentena na Índia - Foto: Nikolay DOYCHINOV / AFP

A confirmação de novos casos do vírus Nipah (NiV), na Índia, voltou a acender o alerta das autoridades de saúde em todo o mundo. Considerado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) um dos agentes infecciosos com maior potencial de provocar surtos, o vírus chama atenção pela elevada taxa de letalidade e pela inexistência, até o momento, de vacina ou tratamento específico.

Autoridades de saúde da Índia confirmaram, pelo menos, cinco novos casos do vírus Nipah no estado de Bengala Ocidental, incluindo profissionais de saúde, o que levou à quarentena de cerca de 110 pessoas em um hospital local como medida de monitoramento e prevenção de novos contágios.

Por conta da situação, países vizinhos como Tailândia, Nepal e Taiwan aumentaram a fiscalização em aeroportos para reduzir o risco de propagação internacional. Apesar do alerta internacional, especialistas reforçam que, no atual cenário, não há motivo para pânico, mas sim para vigilância constante.

Risco de surto no Brasil

Neste sentido, profissionais da área médica afirmam que a probabilidade de o vírus Nipah causar um surto no Brasil - semelhante ao da Covid-19, que entre 2020 e 2023 resultou em cerca de 700 mil mortes -, é considerada baixa.

Para a médica infectologista Clarissa Cerqueira, a possibilidade de o vírus ser o responsável por uma nova pandemia no Brasil é remota, principalmente por conta da localização geográfica do hospedeiro do vírus.

“Eu acho que o risco é baixo, porque o reservatório principal do vírus de Nipah são os morcegos do gênero Pteropus. E eles vivem de forma predominante na Ásia, na Oceania e na África. Então, a nível desse cenário, eu acho baixo”, explica a infectologista.

A médica infectologista Clarissa Cerqueira acredita que chance de nova pandemia no Brasil é baixo | Foto: Arquivo Pessoal

Ainda segundo a especialista, embora exista transmissão entre humanos, ela costuma ocorrer de forma limitada e em contextos específicos. “Tem transmissão entre os humanos? Tem, mas não é a principal forma. Geralmente acontece em surtos, de forma limitada, não é algo que fica perdurando por muito tempo. A gente precisa vigiar, mas a probabilidade eu considero um risco baixo”, reafirma Clarissa Cerqueira.

Sintomas e gravidade da doença

O vírus Nipah pode apresentar sintomas iniciais semelhantes aos de outras infecções virais comuns, o que, conforme a médica, dificulta o diagnóstico precoce. No entanto, a evolução rápida para quadros neurológicos graves é um dos principais sinais de alerta.

“O que mais chama a atenção, no início da infecção, geralmente é parecido com outras infecções virais que a gente tem aqui: febre, dor de cabeça, dor no corpo, vômito, dor de garganta. Isso tudo parece até uma gripe. Mas, a grande diferença, o que mais chama atenção, é uma progressão rápida para sintomas neurológicos graves", destaca Clarissa.

A Índia confirmou, pelo menos, mais cinco novos casos no país | Foto: Divulgação/ Ruslanas Baranauskas

Então, o paciente que evolui com tontura, sonolência, alteração do nível de consciência e sinais claros que a gente chama de encefalite, convulsão, aí isso chama atenção. Alguns pacientes também podem ter um quadro de pneumonia e dificuldade de respirar, mas o que mais chama atenção são sinais de encefalite e a letalidade alta da doença", completa ela.

Transmissão e diferença em relação à Covid-19

A infectologista ressalta que o Nipah não apresenta a mesma facilidade de transmissão observada na pandemia de Covid-19, o que reduz o risco de uma crise sanitária mundial.

“A Covid se espalhava por aerossóis e gotículas, o que facilitou muito a transmissão. Já o Nipah é transmitido principalmente por contato direto com fluidos corporais ou com animais contaminados. Não é uma transmissão por aerossol. Por isso, acho difícil que ele cause uma pandemia”, avalia a médica.

Segundo a infectologista Clarissa Cerqueira, o risco de uma nova pandemia no Brasil é baixa | Foto: Olga Leiria / Ag. A Tarde

Mas, em caso de confirmação da doença, Clarissa Cerqueira destaca que o isolamento imediato e o rastreamento de contatos são fundamentais para conter a disseminação. “Primeira coisa é isolar o paciente e rastrear todos os contatos, acompanhar a cadeia de transmissão. Também é fundamental educar a população e alertar os profissionais de saúde para que suspeitem do diagnóstico”, afirma.

Ela pontua ainda que medidas mais extremas, como restrições de viagens, só seriam avaliadas em cenários muito graves. “Nos casos mais graves, pode-se avaliar restrição de viagem como aconteceu na Covid, mas eu não acho que vai precisar”, diz.

O que é o vírus Nipah

O Nipah é um vírus zoonótico - doença transmitida de animais para humanos -, principalmente por meio do contato com secreções de morcegos frugívoros - que se alimenta de frutas - ou alimentos contaminados. Também pode haver transmissão entre pessoas, sobretudo em ambientes hospitalares ou que mantenham uma convivência próxima.

Morcegos frugívoros são os principais transmissores do Nipah | Foto: Reprodução AFP

O vírus, que foi identificado pela primeira vez em 1999, na Malásia, tem provocado surtos recorrentes em países do Sudeste Asiático, principalmente em Bangladesh e Índia. Segundo informações da Organização Mundial da Saúde (OMS), apesar de poucos surtos conhecidos, o Nipah representa uma preocupação relevante de saúde pública devido à gravidade da doença.

Sem vacina disponível, a principal estratégia de prevenção é a informação. A OMS recomenda medidas como evitar o consumo de frutas ou sucos contaminados por morcegos, lavar e descascar bem os alimentos, usar equipamentos de proteção ao lidar com animais doentes e evitar contato físico com pessoas infectadas.